Texto: Zé Miranda | Foto home: acervo pessoal
Para Sérgio Goldenberg, roteirista polivalente da Globo, a região coberta pelo JB em Folhas é muito mais do que sua casa. É lugar de inspiração e parte essencial de sua rotina de trabalho. O morador da Gávea, usa a Fazedoria, o espaço de coworking do Jardim Botânico, como QG criativo. Entre os almoços no Nanquim, pães no Grano e Farina, noites no Baixo Gávea, o artista mantém os olhos e os ouvidos abertos para compor suas histórias.
– Eu gosto muito de interagir com a cidade e com o bairro onde vivo. Ando de ônibus para escutar a conversa dos outros, observar o visual, os gestos, o penteado… Tudo isso faz parte do meu processo. Acho que é assim que eu converso com o mundo – explica Sérgio.
Seu trabalho mais recente foi a novela “Guerreiros do Sol”, aprovada pelo público e pela crítica, que exigiu um trabalho de pesquisa de aproximadamente um ano e meio. A obra é adaptada do livro homônimo de Frederico Pernambucano de Mello, que participou ativamente da produção como consultor, o máximo de veracidade ficção amplamente inspirada na história de Lampião e seu bando, e realizada em parceria com George Moura que, além de morador do bairro, é um dos maiores colaboradores de Sérgio.
Guerreiros do Sol ainda pode ser visto na Globoplay (Foto: Globo/Estevam Avelar)
No processo de pesquisa, a dupla bebeu de diversas fontes para compreender a realidade que iam escrever. Literatura de cordel, filmes western, documentos de época e visitas aos locais onde o banditismo ocorria fizeram parte do processo. Para criar a ficção situada em meio a realidade do cangaço, foi necessário estabelecer um universo vocabular referente ao período.
– Nós fizemos uma viagem seguindo a trajetória de Lampião, de Pernambuco até Alagoas, Sergipe e o Raso da Catarina, que é uma terra muito emblemática da Bahia, onde só o “Rei do Cangaço” conseguia ir. Andando por lá, George e eu pudemos imaginar o que seria a vida nômade num local daqueles, sem saber onde dormir e com o medo constante de ser surpreendido pela polícia. A gente precisava sentir isso de perto. A herança do cangaço é algo ainda muito vivo no Nordeste, com uma divisão clara entre os herdeiros das volantes e familiares de cangaceiros – relembra o roteirista.
Quem assistiu às obras mais recentes de Goldenberg pode se surpreender ao saber que a ficção nem sempre foi seu maior interesse. Seu primeiro trabalho era o estágio dos sonhos de muitos estudantes de cinema. Enquanto cursava a Universidade Federal Fluminense (UFF), ele era encarregado de assistir a filmes e escrever sinopses para a Embrafilme, produtora e distribuidora estatal extinta em 1990.
Nessa mesma época, Goldenberg era voluntário num projeto social na comunidade de Santa Marta, onde cuidava de um cineclube e de uma colônia de férias com a associação de moradores. Por um acaso do destino, um cineasta estava fazendo o documentário “Santa Marta: Duas Semanas no Morro” e precisava da ajuda de alguém que conhecesse o local e seus moradores. O cineasta em questão era Eduardo Coutinho, um dos maiores nomes da história do audiovisual brasileiro e morador do Jardim Botânico até sua morte, em 2014.
– Para mim, Coutinho foi uma figura paterna. Eu era moleque, mas ele me tratava com todo o respeito e realmente me ouvia. Nossa relação era bastante anárquica. Era um homem inteligente, com muito humor – relembra Sérgio, com sua fala calma e saudosa.
Após atuar como assistente de direção de Coutinho, Goldenberg começou a produzir seus próprios documentários e foi convidado a trabalhar na TV Globo, no programa Brasil Legal. Mas foi só em 2005 que começou sua trajetória na escrita de ficção, quando lançou o filme “Bendito Fruto”, comédia romântica que roteirizou e dirigiu. A partir daí, não parou de contribuir com as obras em nenhum dos âmbitos da audiência, se mostrando um verdadeiro camaleão da escrita audiovisual. Escreveu de “Malhação”, para a molecada, a séries policiais como “O Caçador” e “Força Tarefa”, voltadas ao público adulto.
Atualmente, Sérgio aguarda o lançamento de seu filme “Precisamos Falar”, uma adaptação, também em parceria com George Moura, do romance best-seller “O Jantar”, escrito pelo holndês Herman Koch. Sem poder dar mais detalhes, sobre os demais projetos, por conta do sigilo contratual, Sérgio deixou apenas uma certeza: o Jardim Botânico seguirá sendo imprescindível para seu processo criativo.




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