Texto e fotos: Chris Martins
Clélia Bessa e Rosane Svartman se conheceram, ainda jovens, trabalhando para Cacá Diegues na produção de “Veja essa canção”, em 1994. Daquele primeiro encontro, decidiram fazer um filme juntas, o longa-metragem “Solteiro no Rio de Janeiro”. Fundaram a Raccord Produções que conta com mais de 23 produções, entre longas, curta metragens e séries e nunca mais se separaram, lá se vão 31 anos. Só para esclarecer, elas não formam um casal homoafetivo, são apenas amigas, sócias e comadres que levam a sério as expressões “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”.
Agora, as duas se lançam a um novo desafio, que tem a ver com a sua própria história: o longa-metragem “Câncer com ascendente em Virgem”, que estreia em circuito nacional, a partir de 27 de março, em mais de 500 salas. O filme é inspirado no blog “Tenho câncer, e daí?, criado por Clélia quando descobriu que estava com câncer, em 2008, que virou livro – pela editora Cobogó -, e agora ganha uma versão cinematográfica que vem chamando a atenção desde 2023, quando foi exibido dentro do Festival do Rio, e lotou o Odeon. O motivo é simples, até hoje, nenhum filme abordou o tema. Para Clélia, o interesse pelo assunto vem justamente da necessidade em discutir abertamente a doença.
Clélia saiu no bloco Suvaco do Cristo na ala do filme (Foto: Chris Martins)
“Nós precisamos furar a bolha. O câncer de mama atinge cerca de 78 mil mulheres por ano no Brasil e todo mundo tem ou teve uma pessoa próxima com a doença, mas pouco se fala sobre ela ou da importância do exame preventivo. E a jornada é muito parecida. Então a gente juntou um pouquinho de cada história, que faz com que todos se identifiquem um pouco neste filme, que chega para jogar luz no tema, mas de uma forma leve, com humor.” – explica Clélia, com o complemento de Rosane: “A gente ri em momentos angustiantes, a gente chora em momentos de muita felicidade. Isso faz parte da cultura brasileira.”
No filme, Suzana Pires – que assina o roteiro com Martha Mendonça e Pedro Reinato – é Clara, uma professora de matemática, mãe de uma adolescente, que vive bem no seu mundinho organizado até ser abalada pela notícia de que tem câncer. Querendo esconder a doença da família e dos amigos, ela acaba sendo aconselhada pela médica a revelar o que está acontecendo e acaba formando uma grande rede de afeto a sua volta. A produção conta ainda com Marieta Severo no papel de mãe de Clara, uma senhora moderna e mística, com humor. “o filme ressalta muito esse conjunto da família, principalmente o triângulo filha, mãe e avó. Eu acho que isso é uma tradição brasileira, da nossa cultura. A gente valorizou esse triunvirato, de uma forma leve.”, conta Rosane.
Nathália Costa, Suzana Pires, Rosane, Marieta Severo e Clélia no set. (Foto: divulgação)
Produtora da obra, Clélia participou em muitos momentos, fazendo sugestões no roteiro, que contou também com o auxílio luxuoso da filha, Elisa Bessa. O principal objetivo do filme é levar o tema para a sala de jantar e para os bares, para que as pessoas conversem sobre ele sem medo.
“Acredito que boa parte do estigma do câncer vem da falta de conhecimento sobre o fato de que ele pode ser curável, especialmente quando diagnosticado precocemente. E o humor é uma ferramenta poderosa para alcançar as pessoas e ampliar essa conversa, tornando o tema mais acessível e presente no dia a dia.”, reflete Clélia.
Por conta desse possível debate, a dupla promoveu sessões para grupos de mulheres e o retorno foi além do esperado. “Todas falam é a minha história, a minha história… o que é ótimo, porque a jornada é muito parecida. A principal mensagem é que o câncer de mama não é uma sentença de morte. É um filme sobre a vida”, reforça Clélia.
Clélia em um dos encontros com pacientes: aprendizado. (Foto: divulgação)
Com o pensamento de que o filme celebra o nascimento e a vitória, que uma das ações promocionais foi uma ala com as mulheres desfilando com peitos de borracha no desfile do Suvaco do Cristo, no carnaval. Com a presença da dupla dinâmica Rosane e Clélia se divertindo e carregando o estandarte. “Quer algo mais vivo do que isso?”, brinca a produtora. Rosane faz coro: “Essa história celebra a vida, as redes de afeto e a família, iluminando a jornada de uma mulher com câncer”, diz a diretora que esteve junto da sócia e comadre durante em todos os momentos, desde o começo do tratamento, há 15 anos.
Amigas, irmãs, parceiras, “maridas” e sócias. Rosane e Clélia passaram a se chamar de várias formas ao longo dos anos, fruto de uma relação sólida de amizade, construída com respeito, confiança, afeto e amor. “Tem a ver com casamento sim, com os filmes que fizemos juntas e de se conhecer muito, até quando a gente discorda, o que é muito saudável”, atesta a diretora que é madrinha de Elisa Bessa. Para Clélia a palavra é companheirismo. Ela cita a parceira em vários momentos do livro e acrescenta. “A Rosane é uma pessoa com quem eu posso contar em qualquer situação e tem mais: ela só me liga no final de semana para falar de diversão, o que é muito saudável. A gente sempre consegue separar bem a amizade do trabalho e está sempre em sintonia. Uma complementa a outra e foi assim desde o começo. Ela chega com uma ideia e eu digo “Bora!”
O Jardim Botânico é o cenário desta amizade de 30 anos. Clélia mora desde nova na área, enquanto Rosane, depois de uma breve passagem pela Gávea, veio para o JB e agora está no Horto, que adora. Botafoguenses. Na hora do lazer, a diretora curte o verde da região e caminhadas, que podem ser no meio do mato ou pelas ruas, encontrando vizinhos e amigos, enquanto a produtora não foge à regra e prefere uma boa sessão de cinema. Como point, Rosane cita o foodtruck “Na pracinha”, perto de casa. “Adoro o astral do lugar e ainda é ao ar livre. Uma delícia. Já a parceira está curtindo o Mercadinho 63. “Tem comida boa, com preço justo e é ali do lado”. As duas concordam que o pior da região ainda é o trânsito intenso, que estraga a vibe tranquila do bairro com suas buzinas.
O foodtruck Na Pracinha e o Mercadinho 63 são os points da dupla. (Foto: Chris Martins)
A estreia “Câncer com ascendente em virgem”, tomou a agenda da dupla e as “sisters” estão se dividindo para dar conta de uma maratona promocional, que inclui estreia em várias cidades brasileiras e rodas de conversas em ONGs e instituições ligadas ao câncer. Fora isso, Rosane já está totalmente dedicada à sua próxima novela, “Dona de Mim”, que estreia dia 28 de abril na Globo e tem no elenco Clara Moneke, Tony Ramos, Claudia Abreu e Marcelo Novaes, entre outros. A história tem como fio condutor a mulher e suas batalhas. Clélia se prepara para filmar, no segundo semestre, “Quarto de despejo”, baseado na obra de Carolina Maria de Jesus. Mais uma vez, elas estão – juntas ou separadas, o foco na mulher. “Eu encontrei minha turma e acho super importante tratar desses temas. Voltamos ao começo.” – diz Clélia brincando, mas falando sério.
Mesmo cansadas com a maratona do lançamento do filme, elas não escondem o orgulho de ter conseguido deixar a produção do jeito que queriam. Para a produtora, apesar de ter se baseado no blog, a história não pertence mais a ela.
A pré-estréia do filme no Kinoplex Leblon (Foto: Rogério Resende)
“O tema é tão tão amplo, que ele deixou de ser meu no meio do caminho. É a história de milhares de mulheres diagnosticadas por ano. O câncer de mama é visível, diferentemente de determinadas outras doenças, como a diabetes. Ele escancara a fragilidade daquele momento que você está passando. Vejam o filme, comentem, ajudem a divulgar a ideia. Isso vai ajudar outras mulheres a não terem medo de ir ao médico, de fazer exames, de se cuidarem. – convida a Clélia, celebrando seus 15 anos de cura.
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