6 de novembro de 2025
PROJETO SOCIAL DEMOCRATIZA BALÉ 

Texto: Beatriz Villar, Gabriela Sisto e Maria Bourgeois*
Fotos: Divulgação 

Na Gávea, entre as casas baixas e arborizadas da Rua dos Oitis, uma fachada rosa anuncia em letras delicadas: “Ballet Dalal Achcar”. A entrada leva a um corredor de pedra clara, com portas de madeira e janelas de vidro colorido. O som da música clássica escapa por entre as frestas e antecipa o que se vive ali dentro. 

Sob o mesmo teto, três frentes convivem mutuamente: a escola de formação técnica e artística, a companhia de dança profissional — cujos bailarinos se apresentam em palcos por todo o Brasil — e o projeto social que, desde 2021, oferece aulas gratuitas de balé clássico e jazz para jovens de 8 a 24 anos em situação de vulnerabilidade social. Na prática, não existe separação: os alunos do projeto são inseridos na rotina da escola com a mesma exigência técnica, a mesma estrutura e o mesmo uniforme.

Bailarina desde os 15 anos, Dalal Achcar sempre acreditou que a dança tem o poder de transformar vidas, promovendo a inclusão e o desenvolvimento pessoal. Movida por esse ideal, sua companhia inaugurou em 2021 o projeto. 

– Desde que me dei conta que várias crianças e adolescentes sonhavam em dançar, mas não conseguiam arcar com os custos, comecei a trabalhar com projetos sociais – explica a coreógrafa

Pela casa, crianças e jovens circulam com familiaridade. Deixam mochilas nos cantos da sala, se alongam em silêncio, ajustam os coques e se posicionam na barra. No chão de linóleo cinza, os movimentos se repetem com precisão e atenção. São alunos que cruzam a cidade diariamente — e que, naquele espaço, encontram não apenas uma aula de dança, mas uma estrutura sólida de acolhimento e exigência.

Os ensaios acontecem no estúdio, na Gávea. (Fotos: Divulgação)

A maioria chega cedo, mesmo vindo de bairros distantes. O trajeto envolve trens lotados, ônibus cheios e, às vezes, longas caminhadas até a estação. Ainda assim, quase ninguém se atrasa. Entre os alunos, o comprometimento é parte da formação, da rotina e do desejo de estar ali.

– Minha filha acorda antes das 6h para chegar às 8h. E vem feliz, empolgada, como se estivesse indo pro lugar mais importante do mundo — conta Camila dos Santos, mãe de Júlia, 9 anos, aluna do projeto há um ano.

Moradora da Maré, na Zona Norte do Rio, ela acompanha a filha nos ensaios e nos percalços que surgem no caminho.

– Tem dia que o ônibus atrasa, a chuva atrasa e tudo fica mais difícil… mas ela insiste em vir. Aqui ela faz o que ama, tem amigas, é ouvida, aprende, sonha. E volta pra casa, depois de um dia puxado e um longo caminho, com um sorriso no rosto, como quem sabe que vale a pena o esforço. – relata, emocionada. 

Mesmo com estrutura sólida e resultados visíveis, o projeto exige mobilização constante para se manter vivo. O número de jovens interessados cresce ano após ano, e nem sempre há recursos para atender a todos. 

– Encontrar apoio, sensibilizar a sociedade civil e empresarial, para conseguirmos realizar o projeto de forma completa são nossos principais desafios.”, resume Dalal Achcar. A continuidade das atividades depende de incentivos fiscais, como a Lei Rouanet, e de parcerias com instituições privadas, como o Instituto Cultural Vale.

Fernando veio de Aracaju e hoje integra a equipe de Dalal. 

É nesse cenário que histórias como a do bailarino Fernando Mendonça ganham ainda mais sentido. Embora não tenha passado pelo projeto, ele iniciou sua formação também através de um projeto social de dança em sua cidade natal, Aracaju. Hoje, atua profissionalmente na companhia Dalal Achcar, além de ser maquiador e professor.

Recentemente, Fernando voltou à sala de aula para ministrar uma oficina de maquiagem para os alunos do projeto social da escola. A experiência, segundo ele, foi um reencontro com a própria trajetória.

– Me vi ali. Eu sou igual a todas que estavam ali: vim de comunidade e foi graças a um projeto que consegui ter acesso a arte — lembra,  para acrescentar em seguida: 

– Foi emocionante poder contribuir para a vida artística dessas meninas. Quando elas se olharam no espelho depois de terminarem a maquiagem, os olhos brilharam. Tenho certeza que se sentiram lindas e validadas.

Histórias como a de Fernando não são exceção: são provas de que, quando o acesso é garantido, o talento ganha espaço. Para muitos dos jovens atendidos pelo projeto social da Escola de Ballet Dalal Achcar, a experiência com a dança é o primeiro contato com uma rotina estruturada, com a construção da autoconfiança e a sensação de pertencimento em espaços onde, por muito tempo, não se imaginavam.

É o caso de Isadora, 15 anos, aluna da turma avançada. Moradora do Complexo do Alemão e aluna do projeto desde os 12 anos, ela fez primeiro contato com a dança  na Cia de Ballet Dalal Achcar. “Eu não sabia que podia ser bailarina. Nunca tinha entrado num teatro, muito menos ido a uma apresentação, mas sempre tive vontade.  Hoje, eu ensaio pra estar no palco. E isso muda tudo, muda como eu ando, como eu falo, como eu olho pro mundo.”

As alunas no palco, onde o sonho começa a virar realidade. 

A arte, quando acessível, transforma. Mas para que essa transformação aconteça de forma duradoura, é preciso investimento, visibilidade e vontade política. Para Dalal, o impacto vai além da técnica. “O ballet ensina sobre tempo, escuta, convivência. Ensina a cair e levantar, e isso vale para a vida inteira.”

Esse ano, as inscrições para o projeto foram finalizadas em abril. Foram abertas 40 vagas- 30 para meninas e meninos e 10 para jovens- e os candidatos realizaram os testes na sede da companhia, Rua do Oitis, 20, Gávea, em horários divididos por faixa etária. As inscrições eram gratuitas e poderiam ser feitas por meio do e-mail projetosocial.ciabda@gmail.com ou pelo telefone (21) 97091-0012. 

SERVIÇO
BALLET DALAL ACHCAR: @escolaballetdalalachcar 
ENDEREÇO: Rua do Otis, 20- Gávea 
TELEFONE: (21) 97091-0012
CONTATO: projetosocial.ciabda@gmail.com 

*Conteúdo produzido pelas alunas Beatriz Villar, Gabriela Sisto e Maria Bourgeois, através da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

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