Se um morador do Jardim Botânico decidir que está a fim de jogar basquete, ele vai calçar seu tênis, pôr uma bola e garrafa d’água na mochila, e começar uma saga em busca de uma quadra que, se não perfeita, esteja, pelo menos, em condições básicas para um simples jogo. Aqui pela região, entre Humaitá e Leblon, é possível encontrar quadras próprias para o basquete. O atleta começa sua peregrinação pela Lagoa, na quadra da Gatorade, que fica entre o Clube Piraquê e o Parque dos Patins. Lá, as tabelas balançam muito com o vento, metade do chão está alagado por conta de uma chuva de dois dias atrás e a outra metade é utilizada para a prática de Pickleball. Mais adiante, há as quadras próximas ao píer dos pedalinhos. Uma delas possui aros desregulados, com alturas completamente aleatórias e, além disso, costuma ser usada por um grupo de Ioga. A outra, por sua vez, mais parece um campo minado, com poças e desníveis no chão perfeitos para promover entorses de tornozelo. Com um resquício de esperança, o atleta pedala até a quadra da Cobal do Leblon, ao lado do Clube Flamengo. Porém, ao ver a logo do cassino online Betano no chão, ele decide voltar para a casa e jogar videogame.
O Rio de Janeiro, que sediou as Olimpíadas de 2016, é a cidade dos esportes. Seja nas praias, nos parques ou nas ruas, é quase impossível sair de casa sem ver atletas amadores realizando atividades físicas. Mas, por algum motivo, o basquete acaba por ser desprezado pelos órgãos municipais, ainda que seja amplamente acompanhado e praticado no país. O basquete brasileiro já ganhou diversas medalhas nas categorias masculinas e femininas dos jogos olímpicos, é atual campeão nos Jogos Mundiais Universitários (numa virada histórica em cima dos EUA) e já teve mais de 20 representantes na NBA e 15 na WNBA.

Em 2025, com a juventude tendendo a cada vez mais se manter em casa diante de telas, mais do que nunca é importante instigar a prática esportiva. Garantir um ambiente propício para a prática é algo imprescindível para a disseminação do esporte. Na região do Jardim Botânico, até mesmo o futebol, indiscutivelmente o esporte mais popular do país, tem sido precarizado. Gustavo Oliveira, ex-jogador profissional, tem enfrentado dificuldades em encontrar jovens interessados em participar do projeto Bola Cheia, que oferece aulas de futebol, destinando bolsas a famílias carentes e filhos de imigrantes.
– Há alguns anos tento montar um grupo de futebol, e não consigo ter dois times. Até mesmo botar sete de cada lado é um desafio. Nós perdemos muito para a tecnologia e as crianças acabam preferindo jogar pelo celular ou videogame a sair para uma pelada. Além da saúde, acho que isso é muito ruim para a questão de identificação social, de fazer parte de um grupo, que o esporte sempre trouxe: a galera do futebol, a galera do surfe, a galera do skate… Perde-se muito em inclusão. Acho que boas instalações esportivas ajudariam nessa luta – explica o ex-atleta.
Não são somente as crianças e os jovens sedentários que são afetados pelo descaso das quadras, mas os atletas também sentem falta de um lugar propício para a prática esportiva. Esse é o caso de Artur Gutierrez, armador que atua pela atlética de engenharia da PUC-Rio e pelo clube Passo Zero, que foi recém-consagrado com o título Sul-Americano na categoria Sub-19.
— O nosso desempenho, enquanto atleta, recai muito sobre a memória muscular (aprendizagem motora conquistada através da repetição de um movimento). Ainda mais no meu caso, que sou um jogador especializado em arremessos de 3 pontos. A precisão é essencial e, por conta disso, quando vou fazer meu treino individual, é importante que o aro esteja na altura oficial (3,05 metros) e que a linha dos 3 pontos esteja na distância correta (6,75 metros) da cesta. Nem sempre tenho acesso às quadras oficiais e fico frustrado com as opções perto da minha casa, que são ruins – lamenta o atleta de 18 anos.

Com tanto descaso dos órgãos oficiais do Rio diante das quadras de basquete, tem uma galera que assume a responsa. É isso que faz o coletivo PayBack, criado pelos irmãos Rodrigo e Daniel Lório, ex-atletas do Flamengo Basquete que, após notarem a realidade do atleta de alto rendimento no Brasil, desistiram de perseguir carreira, mas não abandonaram o basquete. Em 2017, eles adotaram a quadra próxima ao clube, na Cobal do Leblon, e, desde então, cuidam da manutenção do espaço e promovem pequenos campeonatos. Aos poucos o movimento foi crescendo e, além dos eventos, como a pelada PayBack, que acontece segundas-feiras às 19h, eles promovem a cultura do basquete de rua e a inclusão, trazendo jogador de várias regiões do Estado do Rio e do Brasil. Vem gente jogar de Boa Vista (RR), São Gonçalo, Campos dos Goytacazes e Vilhena (RO). Atletas que se reúnem pelo amor ao basquete, mostrando o alcance do esporte.
— O mais gratificante do projeto é ver que ele transforma a vida das pessoas, com o poder de conectar e dar perspectiva. A galera sai do trabalho e vem de lá de longe para desestressar, socializar e ter esse momento de descompressão do dia a dia. O mais bonito é contribuir para o bem-estar do próximo. O esporte tem essa capacidade – reflete Rodrigo Lório, ex-atleta e incentivador da cultura do basquete de rua carioca.




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