Por Julia Mendes e Julia Zambrano*
Criado em 2015 por Leonardo Godoi e Rafaela Gigliotti, o Rocinha em Cena (REC) é, atualmente, uma organização social que atende crianças e jovens da comunidade, oferecendo aulas de teatro, dança, circo e futebol no contraturno escolar. A venda de água nas praias da Zona Sul é o que possibilita o sustento do REC, que realiza missões para fora do Rio e do Brasil, duas vezes por ano, e acampamentos, quatro vezes por ano. Recentemente, com o crescimento da organização, o REC passou a contar também com uma sede na Cidade de Deus.
Na Rocinha, a arte e o esporte se tornaram ferramentas poderosas de transformação social. O projeto social teve início em 2015 e se formalizou como organização social em 2022. Hoje, com a principal sede localizada na Travessa Roma do Bairro Barcelos, 31, tornou-se um polo cultural e educacional que já transformou a vida de mais de 100 mil pessoas.
Fundado pelo casal Leonardo Godoi e Rafaela Gigliotti, o REC começou de forma simples, quando uma escola de surf, no Complexo Esportivo da Rocinha, cedeu espaço para as primeiras aulas de teatro. Desde então, o projeto cresceu e, em 2018, conquistou a sede principal na região do Trampolim, parte baixa da Rocinha. Inicialmente, o local era apenas uma laje cedida na casa da mãe de um aluno, mas logo o crescimento demandou a locação do prédio inteiro, com um custo mensal de R$ 25 mil, pago com o dinheiro arrecadado com a venda de águas na praia.
– Foi neste ano que começamos a vender água na praia para arrecadar dinheiro para a primeira missão. Desde então, a venda de águas é nossa principal renda, cobrindo 90% das nossas despesas. Os alunos vendem a garrafa d’água por R$ 5, nas praias da Zona Sul, principalmente Ipanema e Leblon. A ideia não é vender apenas a água, mas também a história e a missão do REC. Uma parte menor da nossa renda vem de doações pontuais – afirma Rafaela.

Os fundadores Leonardo Godoi e Rafaela Gigliotti (Acervo pessoal)
Os recursos arrecadados, além de viabilizarem a manutenção da sede no Trampolim, possibilitam a realização de quatro acampamentos – chamados de Acamparec – por ano, dois para as crianças e dois para os adolescentes. Em feriados, a equipe do Rocinha em Cena leva de 50 a 60 alunos para um sítio – geralmente em Guaratiba, Itaboraí ou Campo Grande -, onde passam dias realizando diversas atividades. Outro grande projeto da organização social são as peças apresentadas fora do Rio.
– Os acampamentos são realizados para que nossos alunos tenham a oportunidade de confraternizar fora da comunidade. Assim, além de construírem memórias, as crianças saem de um cenário de vulnerabilidade. Isso contribui para expandir a visão de mundo e perspectiva de vida – conta Rafaela, que acompanha diariamente as atividades com os alunos.
Em 2019, o REC começou a fazer as missões: viagens com alunos do projeto voltadas às apresentações de teatro em espaços carentes como asilos, hospitais e orfanatos. As missões são para fora do estado do Rio e já foram também para fora do Brasil, como Chile e Bolívia. Eles chegam até os destinos de ônibus e a única despesa dos alunos é com as passagens. Os objetivos das missões, além de entreter a plateia das peças, é fazer com que as crianças, que vivem a rotina da favela, tenham contato com outras realidades e perspectivas de vida.

A turma do Rocinha em Cena no Chile (Acervo Pessoal)
O trabalho do REC vai além das aulas com as crianças. Leonardo e Rafaela expandem suas ações sociais para as famílias dos alunos. Sempre que possível, o casal faz doações de cestas básicas e participa ativamente na construção das casas das famílias com materiais de construção. Dessa maneira, contribuem para o bem-estar das crianças além da sede.
Uma das alunas mais antigas do projeto, Maria Eduarda Oliver, apelidada carinhosamente de Dudinha, alçou voos mais altos e hoje cursa enfermagem na Universidade Federal Fluminense (UFF). Outros alunos, especificamente os da primeira turma do REC, são voluntários, assim como todos os funcionários do projeto.
Gabriel Lima, que começou como aluno da turma de 2015 e virou monitor, confessa que o Rocinha em Cena teve impacto na sua vida, abrindo um mar de possibilidades e fazendo com que enxergasse além.
– Quando participei do projeto pela primeira vez, eu tinha entre 14 e 15 anos. Foi o meu primeiro contato com a arte, e no início foi bastante desafiador, porque eu vinha de uma realidade em que o teatro não era algo comum. Confesso que tive alguns preconceitos e até julgamentos, mas essa experiência foi um divisor de águas para o meu desenvolvimento, tanto como criança quanto como ser humano – relata ele, que atualmente é professor voluntário do projeto.
Hoje, como professor e instrutor de circo, Gabriel procura transmitir o que aprendeu e viveu para a nova geração de crianças e jovens da Rocinha. Ele acredita que a arte pode transformar vidas, assim como a dele foi transformada.
*Conteúdo produzido pelos alunas Julia Mendes e Julia Zambrano por meio da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania – ministrada pela professora Lilian Saback – , do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.




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