23 de outubro de 2025
SEGURANÇA EM FOCO NA ZONA SUL

Há dois meses à frente do 23º Batalhão da Polícia Militar, o coronel Sílvio Luiz da Silva Pekly, 45 anos, chegou à Zona Sul com a missão de manter baixos os índices de roubo e enfrentar o aumento dos furtos. Com quase 27 anos de corporação, o novo comandante veio do 31º BPM, que cobria Barra, Recreio e as Vargens (Pequena e Grande) em uma área total de 180km²,  contra 30km² da Zona Sul que abrange São Conrado, Rocinha, Gávea, Jardim Botânico, Lagoa, Leblon e Ipanema.

Em conversa com o JB em Folhas, o militar destacou seus desafios à frente do Batalhão e o papel da comunidade e das políticas públicas no enfrentamento da criminalidade na região. 

JB em Folhas: Como o senhor avalia o cenário atual da segurança na área do 23º BPM?
Cel. Silvio: Usando como referência o período de julho a outubro de 2024, é possível observar uma redução nos roubos e um aumento nos furtos. O roubo de veículos, por exemplo, caiu 60% em relação ao segundo semestre do ano passado. O roubo a transeunte diminuiu 37%, e o de celulares, 24%. Em contrapartida, os furtos cresceram — e isso é uma tendência em todo o estado.

Mas é importante explicar a diferença entre roubo, furto e assalto. O primeiro é identificado quando há emprego de violência ou ameaça, com uso de arma de fogo ou arma branca — e é sempre mais traumático para a vítima. Furto é quando o criminoso se aproveita de uma oportunidade, como uma janela aberta ou um celular deixado sobre a mesa, sem que a vítima perceba. Já o termo assalto é usado popularmente, mas na legislação equivale ao roubo. Ou seja, o que chamamos de “assalto” é, na prática, um roubo com violência ou ameaça.  O que está acontecendo atualmente é que os roubos são praticados por menores de idade, que são apreendidos, mas como não há provas, acabam voltando para a rua no dia seguinte. A polícia tem feito o seu dever, mas há falhas em outras instâncias.

1. JBemF: Que outras instâncias são essas? 
Cel. Silvio: Existem várias etapas no sistema que não funcionam como deveriam. A polícia faz o papel dela — prende em flagrante, atua nas ruas, investiga e previne —, mas muitas vezes o problema está depois da prisão. A Justiça e o sistema socioeducativo não conseguem dar continuidade. Os menores apreendidos são liberados por falta de vagas; adultos reincidentes respondem em liberdade; e a consequência do crime nunca se consolida. Além disso, há falhas na rede de proteção social. Quando o Estado não oferece educação, oportunidades e assistência, o jovem volta para a rua, e o ciclo recomeça.

2. JBemF: Quais são as principais ações para conter esses crimes?
Cel. Silvio: Estamos com operações de revista a motos e ônibus (AREP III), especialmente nas vias de acesso ao bairro. Mapeamos trajetos de onde esses menores vêm, principalmente da Rocinha e do Cantagalo, e atuamos para impedir que cheguem à região. Mantemos também patrulhamento constante em pontos estratégicos, como o Parque Lage e a Praça Pio XI, que tiveram incidência de roubos. Nosso foco é sempre atuar onde o problema aparece, dentro do limite de recursos que temos.

3. JBemF: O senhor mencionou a questão dos menores. A legislação é o maior obstáculo?
Cel. Silvio: Sem dúvida. A nossa legislação é a maior vilã. Um menor de idade hoje não fica preso, porque não há vagas. Então ele volta a furtar no dia seguinte. Não há mágica que reduza o crime se quem o comete não é retirado de circulação. A polícia prende e o mesmo indivíduo é flagrado 15, 20 vezes. É um trabalho constante e contínuo. O problema não é a falta de ação policial, e sim falta de consequência judicial e de políticas sociais que ofereçam alternativa a esses jovens.  A gente vive uma legislação de 50 anos atrás. Tudo está evoluindo, mas a nossa legislação não muda. Então acho que aí é que entra a sociedade. Nesse momento temos que cobrar de quem nos representa, Porque não há como diminuir, a conta não fecha.

4.JBemF: Como a população pode ajudar nesse processo?
Cel. Silvio: Pode. E deve.. O Batalhão só tem duas formas de saber o que acontece na área: pelo registro de ocorrência ou pela comunicação direta com a polícia. Redes sociais ajudam, mas muitas vezes só espalham pânico. O ideal é informar ao Batalhão diretamente, por e-mail, telefone ou por meio dos grupos de segurança. Aqui na região, esses grupos são bem organizados e colaboram muito. A população da Zona Sul é participativa e quer ajudar, o que faz uma enorme diferença.

5. JBemF: Quais são as metas da sua gestão à frente do 23º BPM?
Cel. Silvio: A principal meta é reduzir os furtos, o crime mais difícil de combater. Não posso prometer um número, mas qualquer redução é significativa. Temos uma equipe de análise criminal que está mapeando locais e perfis de atuação dos criminosos. No entanto, segurança pública não é só polícia. É educação, oportunidade e responsabilidade social. Enquanto um menor ganhar R$ 15 mil por mês furtando celular e não tiver punição, não há como competir com isso. É um problema que precisa ser resolvido na raiz.

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