26 de fevereiro de 2026
A MÁGICA DO ÓLEO NO PONTO

Por Matheus Ângelo e Pedro Alvarenga*

Imagina você poder transformar o óleo de cozinha usado em sabão biodegradável? Essa realidade já existe na Rocinha, graças ao projeto Óleo no Ponto. Com sede no CIEP Ayrton Senna, o programa, criado em 2020 pelo empresário Marcelo Santos, morador da Rocinha, promove a conscientização ambiental, geração de renda local e sustentabilidade. 

A base para troca acontece no CIEP e em outros pontos parceiros dentro da comunidade, mas não fica restrito apenas à favela, já que realiza coletas no Condomínio Village São Conrado, no Clube de Regatas do Flamengo e nos hotéis Sheraton e Nacional, oferecendo ainda os produtos a preços acessíveis, que variam entre R$ 3 e R$ 26. Os materiais de limpeza comercializados são detergente, sabão em barra, líquido e em pasta, desinfetante, amaciante e cloro. 

O sistema de troca é simples: a cada dois litros de óleo usados entregues nos pontos de coleta, o morador recebe um sabão em barra; a partir de quatro litros, ele ganha um sabão em pasta; e, quando a quantidade é maior, pode trocar por material de limpeza. 

Mais do que uma ação social, o Óleo no Ponto nasceu da preocupação que o descarte inadequado de óleo de cozinha afetasse o ecossistema local e a vida dos moradores da Rocinha. Segundo Marcelo, a ideia surgiu para cuidar do ambiente mais próximo: 

–  A gente começou a se aprofundar mais sobre como poderíamos colaborar com essa questão ambiental e entendemos que o óleo de cozinha é um dos maiores contaminadores ambientais.Aqui, no quintal de casa, temos a Praia de São Conrado, que todo mundo frequenta pela proximidade. A gente se achou na responsabilidade de começar a trabalhar essa questão – explica o fundador do projeto. 

Marcelo Santos criou o projeto Óleo no Ponto

O descarte inadequado de óleo de cozinha leva à contaminação de rios e mares. Essa poluição afeta diretamente peixes, plantas e outros organismos que dependem da água para viver. Estima-se que cerca de um litro de óleo é capaz de contaminar até 25 mil litros de água, segundo dados da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). Quando jogado na pia, no ralo ou no solo, o óleo alcança o curso d’água e forma uma camada superficial que impede a entrada de luz e oxigênio, provocando desequilíbrios no ecossistema aquático e podendo causar a morte de diferentes espécies. 

A eliminação incorreta do óleo também representa um desperdício de recurso reaproveitável, uma vez que pode ser reinserido em outras etapas da cadeia produtiva, contribuindo para a economia circular, modelo que busca reduzir resíduos e maximizar o uso dos recursos. A engenheira civil, com mestrado em Engenharia Ambiental e doutorado em Geotecnia Ambiental, Melissa Antunes explica que o óleo usado pode ter diversas finalidades e ser reaproveitado em diferentes setores. 

É um resíduo que pode virar recurso em diversas outras cadeias produtivas. Além de ser útil para fazer produtos de limpeza, ele ainda pode gerar biodiesel, pode gerar energia, há vários tipos de reaproveitamento para esse recurso. Então, em termos de economia circular, ele é um resíduo que facilmente pode virar um recurso numa outra cadeia produtiva – destaca Melissa. 

Diante disso, o impacto do projeto vai muito além da produção de sabão. A iniciativa transforma a relação da comunidade com o meio ambiente por meio do incentivo ao descarte correto do óleo de cozinha e da promoção de ações educativas voltadas à conscientização ambiental.

No CIEP, as aulas de Química e Biologia também reforçam a importância do projeto. Os professores utilizam a sede do Óleo no Ponto como exemplo prático de sustentabilidade e cidadania, mostrando aos alunos como o descarte correto de materiais pode impactar positivamente o meio ambiente e a comunidade. Dessa forma, os estudantes integram o conteúdo teórico com a prática cotidiana.

A proposta também contribui para o fortalecimento da economia local, criando oportunidade e valorizando o trabalho de 14 moradores da comunidade que participam da proposta.

Na visão de Marcelo, o projeto Óleo no Ponto une o impacto ambiental, econômico e educacional para a Rocinha, mostrando como projetos sustentáveis podem contribuir com benefícios duradouros para a sociedade. 

– Nós, seres humanos, fazemos parte disso aqui. E se nós mesmos não conseguirmos preservar, quem vai sofrer lá na frente são os mais jovens, aqueles que ainda estão construindo suas famílias – reflete o idealizador do projeto.

*Conteúdo produzido pelos alunos Matheus Ângelo e Pedro Alvarenga, por meio da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania – ministrada pela professora Lilian Saback – , do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados