31 de julho de 2026
MEMÓRIA E RESISTÊNCIA

Gabriel Deveikis e Lucas Lima* 

Resgatar a história da comunidade e valorizar suas tradições tornou-se um movimento de resistência no Horto. Ao longo de décadas, o bairro enfrentou tentativas de remoção e foi alvo de preconceito. Para manter viva a memória de famílias que ajudaram a construir a região surgiram livros, museus e projetos culturais que registram suas origens, lutas e heranças.

Um dos principais registros é o livro Cacos de Memórias, que foi lançado originalmente em 2005 e ganhou uma reedição em 2026. Escrito pela economista, pesquisadora musical e historiadora Maria Nilda da Silva Bizzo, com a colaboração das pesquisadoras Rita Sales e Célia Regina Neves, a obra é fruto de uma pesquisa sobre a formação do Horto e documenta a história da comunidade.

Maria Nilda Bizzo, explica que o Horto surgiu a partir dos funcionários do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, muitos deles descendentes de escravizados que moravam próximos ao trabalho. O bairro também recebeu operários da antiga Companhia de Tecidos Carioca e famílias removidas de outras áreas da cidade.

Os alunos Gabriel Deveikis e Lucas Lima com Maria Nilda e Rita de Cassia Salles

— Se você for estudar o Brasil, o Horto tem um retrato da história do país. O livro mostra que eles estão ali não porque invadiram, mas pela resistência — afirma.

Já Rita Sales, que também é arquiteta, destaca que o livro tornou-se também um instrumento de defesa da comunidade.

— Hoje, quando precisam defender sua história, os moradores têm um documento que ajuda a provar que não são invasores.

Maria Nilda prepara um projeto para registrar as memórias musicais do Horto em parceria com Hugo José Camarate, fundador do bloco Vagalume O Verde, que desde 2005 desfila pelas ruas do bairro unindo cultura, história e sustentabilidade.

 

Nascido e criado no Horto, onde vive há 50 anos, Hugo destaca o papel do bloco na preservação da memória local. Os sambas do Vagalume homenageiam personagens históricos da comunidade, como o jardineiro Pedro Cachimbo, e ajudam a manter viva a história do antigo Clube Caxinguelê, importante espaço de convivência do bairro. Foi em uma roda de samba realizada no clube que Tia Elza, madrinha do bloco, apresentou o grupo ao sambista Luiz Carlos da Vila, aproximando o Vagalume de um dos grandes nomes do samba carioca.

Construção do espaço de convivência, o Clube Caxinguelê.

Além do carnaval, Hugo mantém o trabalho de valorização da memória e da preservação ambiental por meio da Organização Sociocultural e Ambiental VOV, fundada por ele. Em parceria com a AMAHOR e em diálogo com o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o programa Plantando Carnaval desenvolve ações de educação ambiental, reciclagem, regeneração ambiental e fortalecimento dos vínculos entre a comunidade e o território.

Inspirado no livro Cacos de Memórias, o Museu do Horto foi criado em 2010, em parceria com o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Funciona como um museu vivo, a céu aberto e de percurso, mantendo na internet um acervo de fotografias, vídeos, documentos e uma linha do tempo interativa. O projeto contou com a colaboração da historiadora Laura Oliveiri, autora da tese Horto Florestal: um lugar de memória da cidade do Rio de Janeiro.

A diretora Emilia Maria de Souza explica que o museu nasceu para enfrentar a narrativa que criminalizava os moradores.

Diretora do Museu do Horto, Emilia Maria de Souza.

— O museu surgiu em um momento em que precisávamos de um instrumento para contrapor as acusações que nos tratavam como invasores.

Ao lado do sobrinho Emerson de Souza, neto da Tia Elza, Emilia promove oito percursos gratuitos que revelam pontos históricos do Horto, como ruínas de senzalas, uma fazenda colonial, aquedutos e antigas vilas operárias.

Criado em 2023, o Museu Popular do Horto surgiu durante o período de maior pressão pelas remoções. Idealizado por Felipe Vieira, Laura Paiva e Luiz Antônio Lopes, promove encontros, revitalização de espaços e atividades artísticas, enquanto busca uma sede para seu acervo.

Felipe em um dos murais do Horto

Felipe Vieira acredita que preservar a memória também é uma forma de resistência.

— Crescemos ouvindo que éramos invasores. Quando transformamos o nome “Horto”, antes usado de forma pejorativa, em motivo de orgulho, fortalecemos a identidade da comunidade e atraímos novos olhares.

=*Conteúdo produzido pelos alunos Gabriel Deveikis e Lucas Lima, através da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

 

 

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