29 de maio de 2026
O TABLADO COMEMORA 75 ANOS DE ARTE

O Tablado. Quem é ligado em artes cênicas sabe o que isso representa. O espaço fundado pela dramaturga Maria Clara Machado, próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas, é uma referência nacional, quiçá mundial. Em 2026, o teatro completa 75 anos de existência e já contribuiu para a formação de inúmeros atores e atrizes que compuseram — e seguem compondo — a identidade cultural e artística do país, como Marieta Severo, Drica Moraes, Gregorio Duvivier, os irmãos Enrique e Chico Diaz, Maria Clara Gueiros, Débora Lamm e Camila Pitanga, para citar alguns. Até mesmo a vencedora do Globo de Ouro Fernanda Torres já passou pelo palco da Rua Lineu de Paula Machado.

Para Cacá Mourthé, diretora-geral do Tablado e sobrinha de Maria Clara Machado, a trajetória da instituição se confunde com a sua própria história. Criada nos bastidores da escola, ela acompanhou de perto a transformação do espaço em uma das mais importantes referências do teatro brasileiro.

— Quando nasci, o Tablado já era um rapaz grande — brinca. — Mas, com certeza, ele tem ajudado muita gente a encontrar o seu caminho. Não só atores, mas também produtores, iluminadores, figurinistas e cenógrafos. Há 75 anos é assim, e acredito que isso não vá mudar.

Para comemorar o aniversário desse patrimônio cultural do Rio de Janeiro, quem ganhará um presente são os amantes do teatro. O Tablado preparou uma série de ações culturais, entre elas o Concurso de Dramaturgia Maria Clara Machado, que busca incentivar novos espetáculos originais voltados para as crianças de um Brasil plural, fragmentado, oral, imagético e híbrido. Embora a escola tenha raízes profundas no Jardim Botânico, o concurso receberá textos de todo o país, ampliando o potencial criativo para além do Rio.

Mas não é necessário esperar o resultado do concurso para ir ao teatro, porque uma boa peça em cartaz o Tablado sempre tem. A programação comemorativa conta com uma nova montagem de “A Bruxinha que Era Boa”, clássico da casa que terá 70 apresentações e estreia marcada para 25 de julho. As leituras já começaram sob a direção de Cacá Mourthé, e o espetáculo contará com um elenco formado por jovens talentos da instituição, entre eles Luísa Kosovski, Samuel Valadares, Helena Alpino, Grila Grimaldi, Maria Repeto, Bruna Zordan, Rodrigo Soares e Bia Linhales, que no ano passado conquistou o público ao interpretar Pluft, o Fantasminha.

Segundo Cacá, a montagem é uma das principais frentes da programação comemorativa dos 75 anos.

— Temos quatro frentes para celebrar essa data. A primeira é justamente a nova montagem de “A Bruxinha que Era Boa”. Queremos comemorar olhando para o futuro, mas sem perder de vista a nossa história.

“A Bruxinha que era boa” estreia dia 25 de julho com a nova geração do Tablado

Para concretizar e compartilhar tantos anos de trajetória, também será construída uma estátua de bronze em tamanho real de Maria Clara Machado. A escultura ficará na calçada, ao lado da entrada do teatro, pronta para receber diariamente alunos e espectadores. A obra leva a assinatura do artista Edgar Duvivier — responsável também pela estátua de Marielle Franco — e será financiada com a venda de 50 réplicas em miniatura, numeradas e acompanhadas de certificado de autenticidade.

— Edgar está produzindo as miniaturas que já estão à venda. É uma forma de eternizar a presença de Maria Clara na porta do Tablado e celebrar o legado que ela deixou para a cultura brasileira — explica a diretora.

Edgar Duvivier com a escultura de Maria Clara Machado (Foto: acervo pessoal)

Mas as homenagens não param por aí. Está sendo preparada uma edição especial do tradicional Caderno de Teatro, publicação criada em 1956 como um gesto de partilha dos conhecimentos teatrais. A coletânea funciona como uma espécie de manual de iniciação à arte dramática, reunindo ensinamentos, conceitos fundamentais e dramaturgias clássicas do Tablado e do repertório mundial.

Ao olhar para a história da instituição, Cacá não tem dúvidas sobre qual é o seu maior patrimônio.

— Sem dúvida nenhuma, é a experiência humana. Nossa equipe, nossos professores e todas as pessoas que já passaram e passam por aqui. Esse é o verdadeiro patrimônio do Tablado, como diria Maria Clara Machado.

Instalado há 75 anos no mesmo endereço, o teatro mantém uma relação estreita com o Jardim Botânico e com a cidade. Para Cacá, o espaço já faz parte da paisagem afetiva do bairro.

— Eu acho que o Tablado está para o bairro assim como o Jardim Botânico e o Parque Lage estão. São 75 anos de história na mesma sede. O Tablado é um patrimônio muito importante não só para o bairro, mas para toda a cidade do Rio de Janeiro.

A escola por trás da cena

Uma das muitas montagens de “A bruxinha que era boa” no Tablado (Foto: divulgação)

Mais do que formar atores, o Tablado se tornou um celeiro de profissionais das artes cênicas. Ao longo de 75 anos, a escola desenvolveu um modelo de ensino em que os alunos aprendem não apenas a atuar, mas também a conhecer os bastidores de um espetáculo, passando por áreas como iluminação, sonoplastia, figurino e direção.

A atriz Clara Farroco, de 19 anos, é um exemplo dessa formação. Depois de participar da montagem técnica de um espetáculo, passou a atuar também na operação de som e iluminação, experiência que abriu portas para trabalhos em outros teatros da cidade. 

— Eu não esperava aprender tantos outros aspectos do teatro. É uma oportunidade enorme” — resume.

Já Isadora Ruppert, de 26 anos, conciliou funções de atriz e assistente de direção antes de construir uma trajetória que a levou ao cinema, participando de produções como O Agente Secreto

— No Tablado aprendi que atuar é apenas uma parte da profissão — afirma.

O reconhecimento da escola ultrapassa os limites da Zona Sul. Moradora de São João de Meriti, Milena Carreiro encara longos deslocamentos para frequentar as aulas e participar dos projetos da instituição. 

— É um lugar de encontro. Teatro bom é feito em conjunto — diz.

Para Cacá Mourthé, essa cultura de colaboração é um dos diferenciais da escola fundada por Maria Clara Machado.

 — O teatro educa para o coletivo. Do contrarregra ao protagonista, todas as funções têm a mesma importância — destaca a diretora.

O Tablado por quem passou por ele

Debora Lamm e Maria Clara Gueiros se formaram pelo teatro do Jardim Botânico

 

“Tenho um carinho muito grande pelo Tablado, um celeiro vivo de iniciação teatral. Passados tantos anos, o legado de Maria Clara Machado continua sendo honrado por Cacá Mourthé e essa turma incrível.” Camila Pitanga

“O Tablado significa muito para a minha vida. Foi onde passei boa parte da minha adolescência em meio a pessoas incríveis e talentosas. Tenho marcas e memórias fantásticas, muito presentes em cada instante da minha vida.” Guilherme Fontes

“É um dos meus lugares no mundo. Me deu uma segunda família e grandes amigos. Foi a minha escola e hoje é a minha casa. Viva o Tablado!” Débora Lamm

“O Tablado passa para mim uma sensação de comunidade, de aprendizado a partir do lúdico, da afirmação da criação com confiança, junto de parceiros e parceiras. De lá veio a crença de que somos capazes de criar o mundo.” Enrique Diaz

“Uma das memórias que eu tenho da minha vida é o Tablado, como se minha casa! Além de ser um celeiro de atores, muito importante no cenário cultural nacional, tem gosto de família.” Maria Clara Gueiros

“O Tablado foi a minha tábua de salvação. Eu era um adolescente perdido no mundo quando Sura Berditchevsky me levou para lá e Maria Clara Machado me acolheu de forma maravilhosa. Sou muito grato. A partir dali, virei o que sou.” José Lavigne.

 

Maria Clara Machado na porta de O Tablado (Acervo Tablado)

ONDE TUDO COMEÇOU

A história do O Tablado começou em 28 de outubro de 1951, quando a dramaturga Maria Clara Machado reuniu um grupo de artistas, intelectuais e amigos para criar uma companhia de teatro amador no Rio de Janeiro. A primeira sede funcionava em uma sala simples cedida pelo Patronato Operário da Gávea, onde aconteciam ensaios e apresentações para um público ainda pequeno, mas cada vez mais interessado.

Inicialmente, a proposta era fazer teatro amador para adultos. Mas a trajetória do grupo mudou quando Maria Clara começou a escrever peças voltadas para o público infantil. O sucesso foi tão grande que obras como Pluft, o Fantasminha, apresentada pela primeira vez em 1955, transformaram O Tablado em uma referência nacional do teatro infantil brasileiro.

Ao longo das décadas, O Tablado deixou de ser apenas uma companhia teatral e se transformou em uma das mais importantes escolas de formação de atores do país. Em 1964, Maria Clara criou os cursos de improvisação, que revelaram gerações de artistas e consolidaram o espaço como um verdadeiro celeiro de talentos.

Mais do que uma escola, O Tablado se tornou um símbolo da cultura carioca e brasileira, reconhecido como patrimônio cultural e lembrado pela combinação entre formação artística, espírito coletivo e valorização da imaginação. Mesmo após a morte de Maria Clara Machado, em 2001, seu legado continua vivo, mantendo o espaço como uma das instituições mais importantes do teatro nacional.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

EDUCAÇÃO E CIDADANIA NA GÁVEA

EDUCAÇÃO E CIDADANIA NA GÁVEA

No alto da Gávea, herança do ex-presidente Epitácio Pessoa se tornou grande aliada para as mães das comunidades e arredores.