29 de maio de 2026
COPA DO MUNDO VOLTANDO PARA AS RUAS

Em ano de Copa do Mundo, a grande competição mundial organizada pela Fifa toma conta dos brasileiros. Cada cidade tem sua tradição e, aqui na região, o clima de torcida já começa a aparecer em diferentes pontos. Entre trocas de figurinhas, decoração de ruas e grandes eventos, os moradores retomam tradições afetivas enquanto a Copa de 2026 reacende o espírito coletivo que marcou outras gerações.

A troca de figurinhas é o maior sinal de que a Copa está chegando aqui no Jardim Botânico. O Mercadinho 63 abriu a agenda oficial para receber a garotada, aos sábados, das 12h às 14h, para trocar figurinhas, reunindo pais, crianças e colecionadores em um ritual coletivo.

O Jockey Club também volta a sediar um grande evento voltado para a Copa do Mundo. A partir do dia 3 de junho, entra em campo, no Pião do Prado, o Village Superbet, que chega à sua quarta edição reunindo o público em torno dos jogos da competição e de uma ampla programação musical, que segue até 19 de julho. O evento contará com shows, ativações imersivas e gastronomia, além de atrações como Anitta, Pretinho da Serrinha, Péricles, Mc Cabelinho, Ludmilla, Marisa Monte e João Gomes, entre outros. 

Jockey Club recebe a partir de 3 de junho o Village Superbet (Foto: divulgação)

Pensando nos moradores do entorno, que tradicionalmente sofrem com o impacto sonoro das grandes programações realizadas na região, o evento contará com duas tendas com tratamento acústico, projetada para impedir vazamento de som. Uma funcionará durante o dia, enquanto a outra dedicada à programação noturna, será usada das 22h até a madrugada. 

– Nós recebemos, em 2023, um comunicado do Ministério Público elogiando os cuidados com o tratamento acústico do evento. Eu sou morador do Horto e tive todo esse cuidado de não incomodar os vizinhos. –  afirma Fabrício Baruth, CEO da produtora Vibra, responsável pelo evento.

Enquanto os grandes eventos se organizam, antigas tradições também começam a aparecer pelas ruas da região.  Na Rua Almirante Guillobel, na Lagoa, a moradora Simone Barreto tenta repetir a experiência de 2018, na Copa da Rússia. Junto com vizinhos, ela foi uma das responsáveis pela decoração da rua,  e agora enfrenta dificuldades burocráticas para organizar novamente a mobilização.

Simone Barreto (centro) quer enfeitar a rua, mas está esbarrando na burocracia da Prefeitura (Fotos: acervo pessoal)

— Foi muito legal e ficamos com vontade de repetir novamente, mas estou há semanas sendo jogada de um lado para o outro sem nenhuma definição. Primeiro fui no 1746, depois me mandaram para a Subprefeitura da Zona Sul e me passaram uma série de exigências. Deveria ser mais fácil porque esse evento une os moradores — declara.

Na mesma Copa, a Praça Pio XI, virou um dos principais pontos de encontro do Jardim Botânico, reunindo moradores em torno da decoração das ruas e das trocas de figurinhas. O movimento envolveu crianças, pais e vizinhos em mutirões para arrecadar dinheiro e comprar tintas e bandeiras.

— Junto com outras mães e pais, arrecadamos dinheiro, montamos um grupo de WhatsApp e nos divertimos muito arrumando a praça com as crianças. Pena que, naquele ano, a seleção brasileira parou nas quartas de final. Mas ainda guardo na memória a bagunça e as boas ideias coletivas que surgiram nesse encontro — afirma a moradora Lísia Palombini.

Lísia (centro) e Joana organizaram mutirão na Copa de 2018 na Pio XI

No Caxinguelê, Ana Beatriz também decidiu levar o clima da Copa de volta às ruas depois de perceber o entusiasmo do filho Pedro, de 9 anos., com o anúncio da seleção pelo técnico Carlo Ancelotti. No dia seguinte, a moradora fez sua própria convocação, montando um time de moradores para deixar o bairro ainda mais animado. Por meio de uma coleta, via PIX, o grupo vai enfeitar as ruas Nelson Tinoco e Vicente Mateus, dentro da comunidade. Quem quiser apoiar é só entrar em contato, pelo número 21.99983-3749.

Lembranças de 2018: A rua Almirante Guilhobel e a Praça Pio XI decoradas pelos moradores

Esse momento acaba trazendo memórias afetivos nos moradores mais antigos.  Criada no Horto, Lúcia Mynssen, de 65 anos, guarda lembranças especiais das Copas de 1982 e 1986.

— Era uma grande festa. Todo mundo junto, amarrando plástico verde, amarelo e branco nos barbantes e prendendo-os nas árvores. Depois, quando estava tudo pronto, a gente se reunia em mesas de plástico para tomar Ki-Suco e comer sanduichinhos, ficando até tarde pela rua. Infelizmente, essa tradição se perdeu, porque as crianças ficam muito em apartamento. Uma pena, já que essa era a melhor parte da Copa — relembra.

A jornalista Diléa Frate chegou ao Jardim Botânico em 1981 e se lembra de algum barulho da torcida. Na Copa de 1986, ela e as filhas Ana e Vitória, se juntaram à torcida infantil da vizinhança para arrumar a Rua Perí.

– A comoção partia das crianças. A gente dava o dinheiro para eles comprarem as bandeirinhas e as tintas, e até ajudava a montar, mas a organização era deles. O espírito da Copa daquele ano durou até a festa junina do ano seguinte, quando fizemos uma fogueira na Lopes Quintas e estendemos bandeiras verde-amarelo na rua. Tinha sobrado muito do ano anterior – recorda a moradora.

No Mercadinho, sábado é dia de trocar figurinha da Copa (Foto: Chris Martins)

Pedro Marins – “cria” do Caxinguelê e dono do food truck Na Pracinha – lamenta que a tradição de decorar as ruas tenha acabado. Ele acredita que o fator principal foi o fim do hábito de brincar na rua e também a fraca performance da seleção brasileira em algumas competições. Difícil esquecer o fatídico 7×1 contra a seleção alemã, em 2014. Pedro recorda da virada de clima, após a última derrota da seleção na Copa do Catar, em 2022, quando o time perdeu para a Croácia e abalou seus planos de comemoração de São João. 

– Nós organizamos nossa festa junina daqui do bairro e pusemos até um telão transmitindo o jogo, já que as datas coincidiam. A festa ficou vazia, de tão abalada que a galera ficou depois daquela derrota, nos pênaltis. Parecia até que o pessoal estava de luto – enfatiza Pedro que não pensa no passado e está de olho no futuro e  vai decorar o Na Pracinha para a primeira fase.

 

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