26 de junho de 2026
TODOS OS CAMINHOS DA ARTE

Texto: Zé Miranda 

Na época do Império Romano, costumava-se dizer que todos os caminhos levavam a Roma. Adaptando a máxima para os dias atuais e para a região, seria possível afirmar que muitos dos caminhos da arte levam à Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV). Desde 1975, o palacete histórico cercado pela Mata Atlântica funciona como um terreno fértil para a formação de artistas, um espaço onde ideias são plantadas, experimentadas e transformadas em obras, carreiras e projetos que se espalham pelo Jardim Botânico, Gávea e Humaitá.

Parece impossível falar sobre a produção artística contemporânea da Zona Sul carioca sem encontrar esse denominador comum. Ao longo de mais de cinco décadas, a EAV ajudou a formar gerações de criadores que hoje mantêm ateliês, ministram cursos, promovem exposições e ampliam o acesso à arte na região. Mas os frutos dessa história não se limitam ao Parque Lage. Inspirados por esse ambiente de troca e experimentação, novos espaços de ensino e criação surgiram pelo bairro, formando uma rede criativa que faz da região um dos mais vibrantes polos artísticos da cidade.

Xico Chaves e algumas de suas obras (Foto: Zé Miranda)

O que faz a EAV ser especial ao longo de tantos anos vai além do convite gentil e imponente da floresta às reflexões e à criação. O espaço é feito pelas pessoas que o compõem. E se tem alguém que consegue unir tudo isso em uma amálgama criativa é o artista visual, poeta contemporâneo, letrista, doutor notório saber em artes e professor da Escola Xico Chaves, que tem algumas obras criadas com material do próprio Parque, como pedaços de madeira, tintas de composição natural, folhas e o que mais inspirar o artista em criação constante. 

Desde 1976 – o ano de abertura oficial da Escola de Artes – Xico está “fazendo alguma coisa por aqui”. Nascido e criado em Minas Gerais, ele começou a trabalhar aos 12 anos, em uma rádio, e aos 15 dava aula de alfabetização para adultos, tendo o primeiro contato com o ofício do ensino, que hoje é um dos grandes motores de sua própria produção.

– Como professor e artista, eu acabo me renovando o tempo todo, passando com os alunos pelos obstáculos dos trabalhos deles. Isso me mantém estudando e me impede de ter sempre a mesma posição estética ou crítica em relação à arte. Dessa maneira, renovo sempre meu processo criativo. Essa vida é uma negação e afirmação constante de tudo aquilo que vivencio – conta o professor. 

Enquanto alguns artistas parecem ter passado a vida na EAV, outros têm uma trajetória em que a Escola atua como um divisor de águas, que possibilita a descoberta de um propósito maior. Bruna Traesel começou sua carreira como modelo ainda aos 13 anos de idade, em Porto Alegre. Desde então, viajou o mundo trabalhando com os maiores nomes da moda até perceber que ainda buscava seu cerne. No final de 2024, pouco depois do nascimento de sua filha, Mia, ela fez uma aula na Escola de Artes Visuais que mudou seu rumo. Ao sair, chorando de emoção no carro, sabia que tinha encontrado o que buscava.

Bruna acaba de abrir seu seu ateliê no Jardim Botânico (Foto: Chris Martins)

Hoje, com 36 anos, Bruna se dedica inteiramente à arte em seu recente ateliê com vista para um “monte de brócolis” – como chama a Floresta da Tijuca -, no Jardim Botânico. No apartamento charmoso, salpicado de todas as cores e com paredes tomadas pelas telas enormes em que costuma se expressar, ela cria as obras que marcam a ascensão meteórica de sua carreira, que a levará a horizontes ainda maiores. Logo em sua primeira exposição solo, a artista vendeu quase todos os quadros expostos. Recentemente, ela foi convidada pela gravadora RAIO LASER para produzir a arte de capa de alguns álbuns, sendo o primeiro deles “The Night”, da produtora, DJ e curadora musical Mary Olivetti, em parceria com a cantora e compositora Gabriela Riley, com lançamento previsto para 26 de junho. Agora, com o prazer que sempre teve por trabalhar, pode diariamente experimentar todo tipo de composição abstrata. 

– Existe um lugar entre o abstrato e a figuração que me fascina muito. É na interseção dos dois que eu coloco meu trabalho. Já vi pessoas olharem para o abstrato e dizerem que parece algo que uma criança faria. O dia que alguém olhar a minha pintura e disser isso vou ficar muito feliz. Não tem nada mais livre do que uma criança experimentando. Observo muito minha filha fazendo isso – conta a artista.

Todo tipo de arte feita com verdade, da mais técnica à mais experimental, merece ser apreciada. Mas às vezes somente a expressão mais crua serve como convite para a experimentação. Foi em uma exposição contemporânea em Londres, que Brenda Valansi se deparou com a criação mais conceitual e percebeu que produzir arte vai muito além de saber desenhar bem. Ela, que na época trabalhava como veterinária em Nova York, voltou encantada com esse universo, decidida a estudar arte. E lá foi ela para a EAV Parque Lage. 

Fora da ArtRio, Brena está com um novo projeto de residência para estrangeiros (Foto Chris Martins)

Brenda chegou a pintar bastante no começo, mas perdeu todas as suas obras em uma de suas mudanças.  Por uma dessas “coisas da vida”, acabou encontrando seu caminho como “difusora da arte”. Diante da necessidade de se democratizar a arte no Brasil, ela criou, em 2009, o ArtRio, um dos maiores eventos do calendário artístico da América Latina, possibilitando o acesso para os mais variados públicos e incentivando o consumo de criação estética. 

Uma de suas conquistas em prol da democratização dessas criações foi para as obras expostas na feira, a isenção do imposto que as encarece drasticamente, por reconhecê-las como bem de luxo, e não cultural. E depois de mais de uma década comandando o evento, Brenda decidiu vender o ArtRio, sem deixar de se dedicar a tornar a arte mais acessível. Seu próximo passo é possibilitar uma residência artística para criadores estrangeiros no Humaitá, de modo que possam produzir obras realizadas a partir do encontro desses criativos com o Rio de Janeiro, com passeios culturais pelo Cais do Valongo, pelos museus recheados de arte brasileira e, é claro, com a natureza exuberante da região. Ao final das seis semanas de imersão, as obras serão expostas em seu ateliê.

– Acho que a gente tem uma coisa cultural, contra a qual venho lutando, que é a ideia de que arte é para poucos. Até as galerias, por exemplo, não costumam ser convidativas e as pessoas ficam constrangidas de perguntar sobre as obras, como se tivessem alguma obrigação em saber. A arte é para todos sim – reflete Brenda, sobre a acessibilidade desse Universo. 

O Arte Gávea oferece uma variedade de cursos de formação e workshops (Foto: Divulgação)

Como a arte é para todos, não faltam escolas e cursos na região, onde artistas podem repassar tudo aquilo que juntaram como bagagem ao longo da carreira. Um dos lugares que reúne os mais diversos e interessantes professores é o Arte Gávea, um lugar que convida as pessoas a explorar a arte como um todo, com cursos de pintura para artistas experientes e iniciantes, além de oficinas de cerâmica, cursos para crianças e adolescentes. Com um espaço amplo e aconchegante, com vista para o mato e o barulho constante do riacho que corre ao lado, essa casa está apta a receber todos.   

– Oferecemos uma variedade de cursos e workshops. Um pouco de tudo. Eu mesma, além de gerente, dou aula de bioarte, que tem como matéria elementos vivos, como plantas e microrganismos, flertando com a biotecnologia e o lado mais vivo da arte – conta Roberta Stamato, fotógrafa e designer formada pela Nuova Accademia di Belle Arti, na Itália.

No Humaitá, Taciana Amorim gosta também de explorar o barro, trabalhando com a repetição e sequências em sua criação artística. Em seu ateliê, quando não está formando novos ceramistas, está trabalhando em diversas esculturas autorais, de vasos à moringas com esmaltes coloridos ou simplesmente com a cor crua do barro, que tanto aprecia. Morando há mais de trinta anos na região, Taciana sabe reconhecer a influência do local onde mora em seu trabalho.

no seu ateliê, Taciana Amorim divide seu tempo ensinando e criando (Foto: Zé Miranda)

– Às vezes a gente nem percebe, mas todos os estímulos vão ficando no inconsciente e vêm à tona na hora de criar. Tudo isso se soma ao processo artístico – explica a ceramista, que atualmente experimenta o pigmento azul do céu do Humaitá em suas obras mais recentes. 

 

ARTE GÁVEA

Rua Marquês de São Vicente, 452 sb – Gávea.  

WhatsApp: 21.99727-6775  | gavea.arte@gmail.com 

ATELIÊ TACIANA
R. Vitório da Costa, 42 – Humaitá.

WhatsApp: 21.98806-1362 

BRENDA VALANSI 

BRUNA TRAESEL 

ESCOLA DE ARTES VISUAIS DO PARQUE LAGE

 Rua Jardim Botânico, 414 – Jardim Botânico.

WhatsApp: (21) 3610-7532 | cursos@eavparquelage.org.br  

XICO CHAVES

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