Assumir a gestão de uma das regiões mais emblemáticas do Rio de Janeiro significa lidar diariamente com o desafio de conciliar qualidade de vida, desenvolvimento urbano e preservação dos espaços públicos. À frente da Subprefeitura da Zona Sul e da Gerência Executiva Local (GEL) da Lagoa, Pedro Angelito e Leonardo Fernandes de Sá dividem essa missão em alguns dos bairros mais conhecidos da cidade, como Lagoa, Jardim Botânico, Gávea, Ipanema, Leblon e São Conrado. Em entrevista ao JB em Folhas, eles falam sobre ordenamento urbano, poluição sonora, projetos para a região e defendem que a participação da população é fundamental para construir uma cidade mais organizada.
Formado em Direito pela FGV, Pedro Angelito trocou a advocacia empresarial pela gestão pública e hoje responde pela Subprefeitura da Zona Sul. Leonardo Fernandes de Sá, também advogado, formado pela UFRJ e especialista em Política e Sociedade pelo IESP/UERJ, é o Gestor Executivo Local responsável exclusivamente por São Conrado, Gávea, Leblon, Ipanema, Jardim Botânico e Lagoa.
Embora trabalhem de forma integrada, as atribuições são distintas. “A Subprefeitura pensa a Zona Sul como um todo, enquanto a GEL acompanha de perto o cotidiano dos bairros”, resume Leonardo.

Placa da estátua Curumin da Lagoa quebrada.
JB em Folhas: Na gestão pública, qual é o desafio que vocês sabem que não vão conseguir resolver sozinhos?
Leonardo Fernandes de Sá: — Tudo o que envolve mudança de comportamento. Muitas vezes estamos falando de hábitos que atravessam gerações. Existe um conflito entre aquilo que virou costume e aquilo que a legislação determina. O ambulante quer trabalhar, o banhista compra o milho porque isso faz parte da cultura da praia, mas existem regras ambientais e de ordenamento que precisam ser respeitadas.
Pedro Angelito: — É justamente por isso que falamos tanto em cultura de ordem. Essa é a principal bandeira da Subprefeitura. A fiscalização é importante, mas sozinha não resolve. As pessoas precisam entender que a lei, a placa de trânsito e as regras para o uso do espaço público existem para garantir a boa convivência.
JBemF: Quais são as principais prioridades e projetos para os próximos meses?
P.A.: — Nossa prioridade é consolidar essa cultura de ordem e melhorar a qualidade dos espaços públicos. Isso passa pela recuperação de calçadas, fiscalização dos polos gastronômicos, ordenamento do trânsito, conservação das áreas de lazer e fortalecimento do diálogo com moradores e comerciantes.
L.F.S.: — Também estamos trabalhando para fortalecer a identidade da região. Queremos ampliar os circuitos culturais, valorizar os espaços públicos, recuperar as calçadas e incentivar uma ocupação cada vez mais qualificada dos bairros.
JBemF: A Lagoa Rodrigo de Freitas e o Parque dos Patins vêm passando por mudanças que dividem opiniões. Como encontrar um equilíbrio entre lazer, atividade econômica e preservação?
P.A.: — Hoje o desafio é encontrar um equilíbrio entre manter atividades que deem vida à Lagoa e preservar o lazer, a tranquilidade e a paisagem. Também observamos uma mudança no perfil dos frequentadores. Cada vez mais pessoas utilizam a Lagoa durante o dia para caminhada, corrida, ciclismo e outras atividades esportivas. Queremos estimular essa ocupação, orientando os quiosques para oferecerem uma programação diurna.
JBemF: A música alta em bares e restaurantes continua sendo uma das principais reclamações dos moradores da região. O que falta para resolver esse problema?
P.A.: — Temos reforçado a fiscalização e o diálogo com os empresários. Mas a legislação sobre poluição sonora ainda é muito confusa e abre espaço para diferentes interpretações e recursos. Precisamos de normas mais claras para facilitar a atuação do poder público e garantir uma convivência equilibrada entre os estabelecimentos e os moradores.
JBemF: A GEL-Lagoa iniciou um levantamento das calçadas da região. O que os moradores podem esperar desse trabalho?
L.F.S.: — Estamos mapeando os passeios públicos para identificar responsabilidades e priorizar os trechos mais críticos. A ideia é acompanhar a recuperação das calçadas e tornar a região mais acessível e segura para quem caminha. Pequenas intervenções fazem uma grande diferença na qualidade de vida.
JBemF: O senhor tem defendido a valorização da vocação cultural da região. Como esse trabalho pode contribuir para os bairros?
L.F.S.: — A região reúne uma riqueza cultural enorme. Estamos dialogando com equipamentos culturais, galerias de arte e projetos locais para fortalecer circuitos permanentes e incentivar uma ocupação positiva dos espaços públicos. Cultura também é uma forma de cuidar da cidade e fortalecer o sentimento de pertencimento.

Choque de ordem na Lagoa
JBemF: Que Zona Sul vocês esperam entregar ao fim da gestão?
L.F.S.: — Tudo o que é produzido aqui acaba representando um pouco do Rio de Janeiro e do Brasil para o mundo. Queremos resgatar uma Zona Sul organizada, segura, com calçadas melhores, espaços públicos bem cuidados e novos circuitos culturais. É uma responsabilidade enorme.
P.A.: — Espero que os moradores percebam uma cidade mais organizada, capaz de conciliar desenvolvimento econômico, preservação dos bairros e qualidade de vida. Se conseguirmos fortalecer esse diálogo entre poder público, comerciantes e população, acredito que teremos deixado uma contribuição importante para toda a Zona Sul.




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