Caio Gavião e Miguel Ricci *
No Horto, no fim da Rua Pacheco Leão, a vida corre em ritmo diferente do restante da Zona Sul. Entre casas antigas e vizinhos que se conhecem há décadas, a comida feita no bairro quase nunca tem placa ou endereço fixo. Circula por grupos no Facebook, perfis no Instagram e, principalmente, pelo boca a boca.
Longe dos restaurantes badalados da Zona Sul, a gastronomia do Horto cresce de forma discreta. Ali, quem quer comer bem procura o contato de uma confeiteira, encomenda um caldo pelo WhatsApp ou espera a barraquinha de sexta-feira. É assim que funciona a gastronomia do bairro: informal e construída na base da confiança entre vizinhos.
Boa parte dos vendedores concilia a produção com outros empregos. Confeitaria, salgados e caldos são os produtos mais comuns, quase sempre preparados em casa, com ajuda da família quando os pedidos aumentam.
Adriana Calderón José, moradora há 30 anos, é um exemplo disso. Começou a vender doces quando estava desempregada e transformou a cozinha em uma alternativa de renda.

Adriana conta com a ajuda do marido Alexandre nos eventos
— Quando a gente não está trabalhando, procura fazer alguma coisa em casa para obter uma renda — conta.
Hoje, Adriana concilia a confeitaria com o trabalho em uma escola e deixa a produção para a madrugada. Além das encomendas, participa das festas juninas do bairro, vendendo caldos, doces, canjica e pastel. Muitas vezes divide a produção com a sobrinha Maria Julia, responsável pelos brownies.

O brownie é o carro chefe do Mania de Cacau, de Maria Julia
No Horto, o Delícias do Djair Netto já virou referência. Desde 2021, quando encontrou na cozinha uma forma de complementar a renda durante a pandemia, Djair Netto vende coxinhas, bolinhas de queijo e outros salgados para clientes de vários bairros do Rio, mantendo fregueses fiéis no Horto, Jardim Botânico e Gávea. Na maior parte do tempo trabalha sozinho.

Djair Netto e equipe vendem salgados para clientes de vários bairros do Rio.
— Criei uma estrutura que amplio quando tem feriados ou eventos. Hoje consigo receber o pedido e entregar no mesmo dia. A coxinha de frango e a bolinha de queijo são as campeãs de venda, principalmente nos fins de semana.
A internet virou uma aliada importante, especialmente durante a pandemia. Foi nesse período que a moradora Renata Guimarães viu a fila crescer na sua barraca de sexta-feira. Motoristas de aplicativo paravam para buscar seus caldos, empadas e pastéis.

Renata aposta em empadas e caldos na sua barraca no Horto
— Na pandemia foi quando eu mais vendi. Tinha fila de Uber para comprar pastel.
Renata quer crescer, mas o medo de não conseguir atender a todos os pedidos faz com que continue trabalhando sozinha. Ela enxugou o cardápio e concentrou a produção nos caldos e nas empadas. Mesmo assim, a renda da família ainda precisa ser complementada pela filha.
— Muita gente fala para eu sair do Horto porque venderia mais em outro lugar, mas a minha luta é aqui.
Os caldos também se transformaram em fonte de renda para Fernanda Lima e as irmãs Mariana Mendes e Isadora Mendes, moradoras do Grotão. O que começou como uma necessidade financeira conquistou um público fiel. Hoje, elas vendem, em média, 37 caldos por semana.
Todos os dias, elas anunciam no grupo de WhatsApp e fazem as entregas no fim da tarde, principalmente no Horto e no Jardim Botânico. Os caldos são preparados diariamente, sem congelamento, e o que sobra é doado para quem precisa.
O cardápio inclui vaca atolada, caldo verde, aipim com alho-poró e camarão e bobó de camarão. O sucesso do boca a boca rendeu às três um convite para participar da tradicional Festa Junina da Barão, no Horto.
Para Renata, a melhor vitrine continua sendo a própria rotina dos moradores.
— A sexta-feira é o melhor dia para vender. O pessoal chega cansado do trabalho e ninguém quer cozinhar.
Serviço
Adriana Calderón doces – WhatsApp 21.97399-6234
Delícias do Djair Salgados – WhatsApp 21.98105-0488
Renata Guimarães Caldos – WhatsApp21.96450‑6025
Mania de Cacau – WhatsApp 21.98446-1458
Fernanda Lima Caldos – WhatsApp 21.99894-9789
*Conteúdo produzido pelos alunos Caio Gavião e Miguel Ricci, através da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.




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