31 de julho de 2026
HORTO NATUREZA EM AÇÃO

Bernardo Pimentel e Lucca Penante*

Ao retirar toneladas de lixo das águas do Rio dos Macacos, reintroduzir espécies nativas e transformar a conservação da floresta em instrumento de engajamento social e defesa do território, o Horto Natureza consolidou-se como um símbolo de cidadania ativa na recuperação ambiental da Zona Sul do Rio de Janeiro. O projeto é liderado pelo morador Roberto Fonseca, que herdou do tio-avô, o lendário jardineiro do Jardim Botânico conhecido como “Folha Seca”, a paixão pela Mata Atlântica e pelo cuidado com a bacia hidrográfica local, onde atuava como integrante do programa Guardiões dos Rios, em 2001.

Roberto costuma dizer que sua escola foi a própria floresta. É ele quem costuma ser chamado pelos moradores quando uma cobra aparece em alguma casa, devolvendo o animal ao seu habitat. O conhecimento adquirido ao longo dos anos também o levou a integrar a equipe do Instituto Vida Livre, onde atua na reabilitação de animais silvestres.

A horta do Horto Natureza, que fica na encosta do Rio dos Macacos (Divulgação)

O Horto Natureza nasceu da necessidade. Sem saneamento e coleta regular de lixo, os próprios moradores passaram a organizar mutirões para retirar entulhos do Rio dos Macacos e preservar a bacia hidrográfica.

— O governo não dava estrutura nenhuma. Descia fogão, geladeira, máquina de lavar… Todo esse lixo ia parar na Lagoa Rodrigo de Freitas. Sem saneamento aqui no alto, os moradores dos bairros vizinhos culpavam a gente pela sujeira, quando o problema era a falta de serviço público — lembra Roberto.

A mobilização transformou a relação da comunidade com o rio e fortaleceu a defesa do território.

— Quando a comunidade passou a cuidar do Rio dos Macacos, as pessoas entenderam que preservar a natureza também era proteger as nossas casas. O rio deixou de ser apenas um curso d’água e virou parte da nossa identidade — afirma.

O trabalho de despoluição e reflorestamento tornou-se uma importante prova técnica durante a disputa judicial contra os despejos promovidos pela União desde os anos 1980. Os mutirões serviram para mostrar que a comunidade preservava o rio, a fauna e a flora, fortalecendo a defesa da ocupação histórica do bairro. A mobilização ambiental tornou-se um dos pilares que culminaram, em outubro de 2025, no acordo com o governo federal que encerrou quatro décadas de conflito e garantiu a regularização fundiária das famílias.

O projeto ganhou seu nome oficial por volta de 2008, mas foi com a chegada das redes sociais que conquistou maior visibilidade. O ambiente digital tornou-se um canal direto para desmentir acusações de poluição, especialmente após as chuvas fortes, quando a culpa pelo lixo costumava recair sobre a comunidade.

— O Instagram possibilitou que eu me defendesse. Hoje, quando tentam culpar o Horto, mostro que o rio está limpo — explica Roberto.

A visibilidade também abriu caminho para parcerias com órgãos como a Comlurb, responsável pelo recolhimento do lixo dos mutirões, e a Cedae, que realizou obras de saneamento básico na região.

Morador do Horto desde os cinco anos, Evandro da Costa, de 42 anos, acompanhou de perto essa transformação. Para ele, o maior símbolo da recuperação ambiental é ver os filhos e outras crianças da comunidade voltarem a brincar e tomar banho no Rio dos Macacos.

Roberto Fonseca com Roched Seba Do Instituto Vida Livre  (Acervo pessoal)

— Antigamente diziam que a gente destruía a natureza. O Beto mostrou que a poluição vinha do esgoto, não dos moradores. O Horto Natureza provou que somos nós quem preservamos esse lugar — diz Evandro.

 

*Conteúdo produzido pelos alunos Bernardo Pimentel e Lucca Penante através da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

 

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