28 de agosto de 2026
EXÉRCITO VERDE

Liz Tamane 

Na Gávea e no Jardim Botânico, o hábito de plantar árvores e cuidar de áreas verdes faz parte da rotina de moradores que encontraram na relação com a natureza uma forma de cuidar da cidade. São histórias diferentes, que passam por educação ambiental, memória afetiva e trabalho coletivo, mas têm em comum a disposição de colocar a mão na terra.

A professora aposentada Lúcia Souza Leite, da Associação de Moradores e Amigos da Gávea (Amagávea), cresceu ligada ao bairro e à natureza. Seu pai nasceu na Gávea, onde seus avós tinham uma chácara. Durante os anos em que trabalhou no Colégio Teresiano, levou alunos para seu sítio, onde desenvolvia atividades de educação ambiental.

– Há muitos anos, a gente já desenvolvia um trabalho de educação ambiental no meu sítio com as crianças do 5º ano. Cada um tinha a sua árvore e ainda tinha uma placa: ‘Colégio Teresiano 2007’ — conta a professora.

A relação com o plantio continuou depois da aposentadoria, quando Lúcia fez cursos no Jardim Botânico e passou a se dedicar aos cuidados da Praça Santos Dumont, na Gávea. Ela conta com dois ajudantes, pagos pela Amagávea, que executam os serviços sob sua orientação. A tarefa, porém, nem sempre é simples, pois mudas são arrancadas, flores quebradas e canteiros pisoteados.

Moradora da Gávea Lúcia Leite com as plantas que ele se encarrega de plantar e cuidar na Praça Santos Dumont (Foto: Chris Martins)

Para ela, cuidar de uma praça também significa educar para o uso do espaço público. Lúcia conta que tenta colocar mais lixeiras e conversar com os frequentadores para evitar que garrafas e restos de comida sejam deixados nos canteiros. A atividade, diz, faz bem física, social e mentalmente.

– Sou aposentada, curto, gosto e acho que faz bem para mim.

A relação de Cláudio Barbosa, Presidente da Associação de Moradores e Amigos do Jardim Botânico (AMAJB), com o plantio começou ainda na adolescência. Aos 13 anos, ele acompanhava o pai, que desmatava áreas de uma fazenda em Ouro Fino, em Minas Gerais, para plantar café. Sem gostar da retirada das plantas, Cláudio ia para as bordas da lavoura e replantava algumas das árvores mais jovens que haviam sido retiradas Anos depois, já na faculdade, conseguiu mudas da Mata Atlântica com um amigo que estudava Zootecnia na Universidade Rural.

– Meu pai tinha um sítio aqui no Rio, na Estrada da Boiúna, em Jacarepaguá. Eu já estava na faculdade, ali pela década de 1970, e um amigo de infância estudava Zootecnia na Universidade Rural. Então pedi a ele que me arrumasse mudas da Mata Atlântica e plantei mais de 10 mil mudas no local, que nestes 50 anos virou uma linda mata – conta.

Cláudio continua plantando onde encontra espaço, no bairro e está sempre recolhendo o lixo que deixam nas plantas

Claúdio cuida diariamente das árvoes  da rua Oliveira Rocha (Foto: Chris Martins)

– Algumas vezes consigo tirar árvores mortas de uma gola e coloco outra no lugar, e o processo é basicamente este. Atualmente, prefiro plantar árvores arbustivas que florescem, como flamboyant-mirim e resedá.

A calçada da Hípica, na Rua Oliveira Rocha, conta com uma sequência de lanterneiras plantadas por Cláudio para impedir o estacionamento de veículos. Segundo ele, os motoristas arrancavam as plantas com os carros.

Entre as árvores que semeou, uma tem um significado especial: um pau-brasil, que plantou na Praça Pio XI, quando nasceu sua primeira neta, há 21 anos, que está lá até hoje.

– Sinto um prazer gigantesco. Acredito que este hábito que mantenho é relevante, não apenas no Rio, mas no mundo todo.

A ideia de aproximar as crianças desse contato com a terra também está no centro do Projeto Formiguinhas, que atua no entorno do Horto Florestal. Criado por Rogério e Ricardo Matheus e Gustavo Loiola Martins, o Formiguinhas surgiu há três meses quando Gustavo observava uma trilha de formigas e percebeu como elas andavam juntas e ajudavam uma a outra. A cena serviu de inspiração para pensar no trabalho coletivo de 51 crianças.

As atividades acontecem nas áreas do Grotão e Caxinguelê, dentro do Horto, e contam com o apoio da Associação de Moradores e Amigos do Horto (AMAHOR) e de Hugo Camarate, do bloco Vagalume o Verde. As sementes são colhidas e transformadas em mudas que, quando atingem um tamanho adequado, são plantadas pelas crianças e seus tutores. Entre as espécies utilizadas estão pau-brasil, palmeira-juçara, jequitibá, cedro-rosa, grumixama e sapucaia.

Rogério Matheus está à frente do projeto Fomiguinhas, que acontece no Horto. (Foto: Divulgação)

– Todo esse processo considera também que essas árvores se tornarão fonte de alimento para uma grande diversidade de animais que circulam no entorno da floresta, como pássaros, animais silvestres e roedores – explica.

Para o auxiliar técnico Rogério, o contato com a terra muda a relação das crianças com a natureza. Além de tocar a folha e plantar a muda, elas aprendem sobre a importância das plantas e trabalham em equipe, desenvolvendo um senso de coletividade e de proteção ao meio ambiente.

Mais do que plantar, a proposta é fazer com que as crianças levem a experiência para a vida. Para Rogério, elas precisam crescer entendendo a presença das plantas em atividades tão cotidianas quanto respirar, buscar sombra em um dia de sol, tomar um remédio ou um chá.

– Sem as plantas, nada seríamos – completa

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