29 de maio de 2026
 A TRISTE ROTINA DOS GOLPES VIRTUAIS

Mais de 60 anos depois, eu agora faço parte da estatística dos que sofreram um golpe virtual. Triste realidade que registra em torno de 12.466 casos de estelionato no estado do Rio, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ). Enrolada com o fechamento do jornal, eu atendi um telefonema e, tentando agilizar para resolver um problema, acabei arrumando outro.

Do outro lado da linha, uma voz calma, educada, quase acolhedora, se apresentou como funcionário do Itaú. Havia, segundo ele, uma movimentação estranha na minha conta, registrada em Minas Gerais. Eu já estava ocupada e, sem prestar a devida atenção, fui seguindo os “procedimentos” sugeridos. Entre eles, digitar números, como se estivesse lidando com um código de barras qualquer. Nada que, naquele momento, parecesse fora do normal — apenas mais uma burocracia bancária. Só que não.

Hoje, fazendo um pequeno flashback, tudo parece ter a lógica perversa de um enredo bem escrito. Havia um vilão, claro, mas também havia um roteiro sofisticado, cheio de detalhes técnicos e pequenas urgências. Em determinado momento, ele mencionou um suposto vírus instalado no meu celular, algo que estaria interferindo na visualização do saldo — como se a realidade estivesse sendo manipulada diante dos meus olhos. Era impossível não lembrar do conto “A roupa do rei”, de Hans Christian Andersen. Só eu não estava vendo o que era evidente: um golpe. 

Com muita gentileza — esse é o detalhe mais perturbador — ele foi conduzindo a conversa. Sem pressa, sem agressividade, como quem ajuda. À medida em que a minha conta ia ficando negativa, ele tinha sempre uma justificativa pronta, uma explicação técnica que parecia fazer sentido naquele contexto. Até que, em determinado momento, eu me toquei de que não havia nada que provasse que ele era realmente do banco e avisei que ia desligar e procurar a minha gerente. O gatuno, cínico, não se desesperou e ainda disse que, se eu quisesse, poderia contatá-lo depois. O golpe poderia ter sido muito pior, mas fica aquela sensação de ter sido idiota e o aviso mais que batido, de desligar.

Depois do golpe, vem o silêncio. E, com ele, a ressaca emocional. A sensação de impotência é imediata. Você se sente estúpida, otária. Ao mesmo tempo, cresce uma desconfiança que contamina tudo. Mesmo falando com a minha gerente, eu ainda estava desconfiada.  E se ela também fizesse parte do golpe? Na agência, uma funcionária me tocou a real:  “se você tivesse avisado que não reconhecia aquela transação, o banco teria estornado”.  Ou seja, além de tudo fica a lição de que não vale a gente ser correto. 

Talvez o mais inquietante seja perceber que esses golpes não são exceção, mas parte do cotidiano. Estão nas mensagens, nas ligações, nos e-mails, nas pequenas brechas do dia a dia. E, aos poucos, vão moldando uma sociedade mais dura e desconfiada. No fim, o prejuízo não é só financeiro. É também uma rachadura na forma como a gente olha o outro. E essa, convenhamos, custa bem mais caro.

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