Colaboração: Gustavo Villela e Joaquim Zucolotto*
Já não é de hoje que o Horto desperta o interesse de quem busca uma vida mais tranquila. Cercado pela Floresta da Tijuca e vizinho ao Jardim Botânico, o bairro consolidou-se como um refúgio em plena Zona Sul. Durante a pandemia, a região ficou esvaziada e os comerciantes passaram por um período de incerteza. Aos poucos, porém, voltou a atrair moradores e investidores. Hoje, vive uma nova fase, marcada pela abertura de restaurantes, cafés, ateliês e pequenos empreendimentos. O resultado é um bairro mais movimentado, que levanta uma discussão: como crescer sem perder sua identidade?
As ceramistas Angela Siemsen e Thainá Reis acabaram de abrir o Ateliê Acordelado, na Rua Caminhoá. Embora sejam novas no bairro, convivem há muitos anos no Jardim Botânico e decidiram instalar o espaço na região pela combinação entre natureza, vida de bairro e vocação artística.
Elas não são as únicas. Há quatro anos no Horto, a psicóloga Maria Christina Salles trocou Ipanema — onde viveu por 40 anos — pelo clima bucólico da região. Não se arrepende da mudança e gosta de dizer que, quando chega em casa, parece estar fora da cidade. Frequentadora do Clube dos Macacos, ela aprova a chegada de novos estabelecimentos, mas faz uma ressalva.
Outro morador de Ipanema que trocou a praia pelo verde foi Rodrigo Juppa. Há dois anos na área, ele destaca que o crescimento acelerado da região vem ameaçando o equilíbrio entre a tranquilidade da natureza e a vida urbana.
— As ruas estreitas não foram feitas para absorver o grande aumento na circulação de carros e frequentadores — explica o estudante de Comunicação.

Rodrigo trocou Ipanema pelo Horto e está se adaptando
Se os novos moradores descobriram no Horto um lugar para viver, quem está no bairro há mais tempo acompanha essa transformação de perto. Paula Gribel e Luis Antonio Igreja vivem há 17 anos na região. O casal transformou a casa onde mora, no alto do Horto, no Aldeia, um espaço dedicado à medicina alternativa e a terapias integrativas. Para eles, o principal impacto do crescimento está na circulação de veículos.
— Vejo um desrespeito no volume de carros. Alguns motoristas param em fila dupla e, às vezes, bloqueiam garagens. Voltar para casa em certos horários deixou de ser prazeroso. É importante preservar a tranquilidade que sempre caracterizou o Horto — afirma Luis Antonio Igreja, terapeuta corporal.

Joana acaba de comemorar os 15 anos de Horto com o seu Jojö Bistrô (Divulgação)
Muito antes da atual efervescência gastronômica, Joana Carvalho já apostava no potencial do bairro. Instalado em 2011, na esquina da Rua Abreu Fialho, o Jojô Bistrô e Café foi o único restaurante da região a atravessar a pandemia e segue como um dos endereços mais tradicionais do Horto. Para a empresária, o crescimento é bem-vindo, desde que aconteça de forma planejada.
— É natural que o Horto se transforme, mas esse crescimento precisa acontecer com respeito à história, ao patrimônio e às pessoas que sempre viveram aqui. O que faz deste bairro um lugar especial é justamente a convivência entre a natureza, a memória e a vida em comunidade — afirma.

Marli e Lena vivem há 80 anos na região (Foto: Chris Martins).
Nascidas e criadas na Rua Alberto Ribeiro, as irmãs Marlene “Lena” e Marli Niegieski acompanham as mudanças com tranquilidade, mas defendem regras claras de convivência. Elas lembram que alguns empreendimentos enfrentaram resistência no início, mas que o diálogo entre moradores, comerciantes e a Associação de Moradores da Rua Alberto Ribeiro ajudou a estabelecer limites.
— O segredo é chegar aos poucos e ir se adaptando aos costumes locais. Assim, todos podem desfrutar do bairro. As festas de rua, a boa vizinhança e a vida comunitária continuam sendo a principal marca do Horto — resume Marli.
*Conteúdo produzido com a colaboração dos alunos Gustavo Villela e Joaquim Zucolotto através da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.



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