9 de agosto de 2026
(BOX) RECANTO: ALÉM DA DENOMINAÇÃO GEOGRÁFICA

Zé Miranda

Depois do livro, o filme. A historiadora Luciene Carris transformou a pesquisa sobre a memória do Jardim Botânico e do Horto em uma missão de vida. O ponto de partida foi o livro “Histórias do Jardim Botânico – Um recanto proletário na zona sul carioca (1884-1962)”, lançado em 2021, fruto de um mergulho na história de sua própria família e dos trabalhadores que ajudaram a construir a região. A partir daí, o trabalho ganhou novos formatos: vieram o podcast “Sarau da Casa Azul”, o canal Entreconexões, no YouTube, e, mais recentemente, a série “Um Jardim de Histórias”, produzida para o Instagram em parceria com o videomaker Lucas Mendes.

Durante as pesquisas para o livro, Luciene percebeu que a trajetória da família de seu ex-marido, descendente do jardineiro italiano Basílio Carris, era apenas uma porta de entrada para uma história muito maior: a da comunidade do Horto e de sua luta pela permanência no território.

— Quando comecei a conversar com os moradores, entendi que o filme já não era mais sobre uma família. Era sobre uma comunidade inteira, sua memória e sua resistência. Essas histórias precisavam ser registradas e compartilhadas — resume.

Dessa mudança de perspectiva nasceu “Recanto”, curta-metragem dirigido por Luis Felipe Mano que reúne depoimentos de moradores para reconstruir a história de uma das comunidades mais antigas da Zona Sul do Rio. Disponível gratuitamente no YouTube, no canal Entreconexões, o documentário preserva a memória dos entrevistados e registra episódios marcantes do conflito fundiário, como a reintegração de posse realizada em 2016, quando o morador Marcelo Alvarenga teve sua casa demolida.

Formada no início do século XX para abrigar trabalhadores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a comunidade é hoje ocupada por seus descendentes. Há famílias que vivem na região há mais de cem anos, preservando uma identidade construída entre a Mata Atlântica, o Rio dos Macacos e as antigas casas da localidade.

— Era pique-esconde, pique-bandeira, polícia e ladrão. A gente tinha uma cabana no meio da mata, comia manga, jaca, pitanga e fazia a Pocinha no Rio dos Macacos, onde toda a molecada mergulhava — relembra o morador Pedro Paulo Maciel.

Apesar dessa forte ligação com o território, a especulação imobiliária e a gentrificação tornam cada vez mais difícil a permanência dessas famílias.

— Essa região do Jardim Botânico começa a se transformar em um recanto. Não apenas um lugar geográfico, mas um espaço onde ainda permanece uma simplicidade própria de uma cidade do interior — observa o professor Antônio Edmilson Rodrigues.

Falando em demolição, outro imóvel tradicional saiu de cena nesta semana. A antiga panificação Caiçaras, da Rua Marquês de São Vicente, próxima à Puc-Rio, foi ao chão para dar lugar ao empreendimento imobiliário Gaví, que vem transformando parte da paisagem da Gávea.

Há também novidades no comércio. Na Gávea, o restaurante Thai, especializado em culinária asiática, ocupa o ponto onde funcionava o Gávea Mix. Já no Shopping da Gávea, a novidade é a chegada da Linum, loja especializada em peças de linho, instalada no primeiro piso.

 

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