2 de novembro de 2026
DO TREM DO CORCOVADO AOS BRAÇOS DO CRISTO REDENTOR

CORCOVADO: DUAS HISTÓRIAS, UM SÓ DESTINO

Livro resgata a trajetória do trem e sua ligação com o monumento

Durante 47 anos, o Trem do Corcovado já percorria a Floresta da Tijuca antes mesmo de o Cristo Redentor abrir seus braços sobre o Rio de Janeiro. Inaugurada em 1884, ainda no período imperial, a ferrovia levava visitantes ao alto do morro, de onde se descortina uma das vistas mais espetaculares da cidade, quiçá do mundo. Essa trajetória, que atravessa gerações e se mistura à própria história da cidade, é resgatada no livro “Trem do Corcovado, 140+ – Nos trilhos rumo aos 150 anos”, escrito por Marília Neves, presidente da empresa. A obra foi lançada em outubro deste ano, mês em que o trem completou 142 anos, no dia 9, e o Cristo Redentor celebrou seus 95 anos, no dia 12.

À frente da empresa Trem do Corcovado desde 2000, Marília reuniu no livro documentos históricos, curiosidades, episódios marcantes e memórias pessoais de uma relação que começou há mais de quatro décadas. A ideia de escrever surgiu durante as comemorações dos 140 anos da ferrovia, em 2024, como uma forma de preservar sua história e compartilhar experiências de quem acompanhou de perto suas transformações.

— O diferencial deste livro é que reúne não apenas a história do trem, mas a minha trajetória à frente da empresa — afirma.

A ligação de Marília com o Trem do Corcovado começou em 1980, durante a visita do Papa João Paulo II ao Rio de Janeiro. Ela e o marido, Sávio, foram convidados a participar de um passeio turístico e ficaram encantados com a experiência. Quatro anos depois, ele assumiu o arrendamento da ferrovia, até então administrada pelo poder público. Após sua morte, em 1990, a empresa passou por um período sob a gestão de outros sócios, até que Marília assumiu a presidência, dez anos depois, cargo que ocupa até hoje.

Marília Neves escreveu um livro sobre a sua história com a empresa Fotos: Julia Figueira

– Em 1980, quando fiz minha primeira vez naquele trem, eu não imaginava que muitas outras viagens fariam parte da minha rotina. Isso ficou marcado para sempre em minha memória – recorda Marília, na introdução. 

O livro recupera uma curiosidade pouco conhecida: Dom Pedro II participou da inauguração do Trem do Corcovado, em 9 de outubro de 1884, mas naquela época a ferrovia ainda não chegava ao topo da montanha. O percurso terminava na Estação Paineiras, e os visitantes precisavam continuar a subida a pé ou a cavalo. Somente em 1885 os trilhos alcançaram o alto do Corcovado. Entusiasta das ciências e das inovações, o imperador foi um dos grandes incentivadores do projeto, considerado uma ousadia de engenharia para a época.

Ao longo de seus 142 anos, o trem também transportou passageiros ilustres, como  Princesa Isabel, Albert Einstein, Princesa Diana, Beyoncé e John Travolta, entre outros. Mas uma das histórias mais curiosas envolve Santos Dumont, frequentador assíduo do passeio. Segundo o livro, o Pai da Aviação ficava tão fascinado pelo mecanismo de cremalheira, que permite ao trem vencer as encostas íngremes, que costumava pedir autorização aos maquinistas para conduzir a locomotiva.

As quatro fases do trem

A CONSTRUÇÃO DO CRISTO REDENTOR

A construção do Cristo Redentor foi uma verdadeira façanha de engenharia. Idealizado pelo engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa, a partir de desenhos do artista Carlos Oswald, o monumento ganhou sua forma definitiva com a colaboração do escultor franco-polonês Paul Landowski e do engenheiro francês Albert Caquot. As obras começaram em 1926 e mobilizaram centenas de trabalhadores, que enfrentaram os desafios de erguer uma estátua de 38 metros de altura, incluindo o pedestal, no topo do Corcovado, a 710 metros de altitude.

Nesse processo, o Trem do Corcovado teve papel fundamental. A ferrovia, que já funcionava havia mais de quatro décadas, foi o principal meio de transporte de operários, equipamentos e materiais de construção até o alto da montanha. Até mesmo os moldes das mãos e da cabeça do Cristo, produzidos na França e enviados ao Brasil, seguiram em partes pelos trilhos. No cume, a estrutura foi erguida em concreto armado e revestida com milhares de pequenas peças de pedra-sabão, preparadas também com a colaboração de mulheres voluntárias. Inaugurado em 12 de outubro de 1931, o monumento tornou-se um símbolo da cidade e da importância histórica do trem, sem o qual sua construção teria sido muito mais difícil.

O percurso, que originalmente levava ao mirante do Chapéu do Sol, tornou-se, com a inauguração do monumento, um dos principais caminhos turísticos e religiosos do Rio de Janeiro.

O livro também percorre as transformações tecnológicas do transporte ao longo das décadas. Desde que assumiu a gestão, Marília acompanhou importantes modernizações, entre elas a chegada, em 2019, da quarta geração de trens, com composições panorâmicas fabricadas na Suíça, que substituíram os modelos anteriores.

Atualmente, cerca de 1,5 milhão de pessoas utilizam o Trem do Corcovado anualmente. Para muitos turistas, o passeio pela Floresta da Tijuca é tão marcante quanto a chegada ao monumento, com a paisagem que se revela durante a subida.

Diariamente mais de quatro mil visitantes visitam o Cristo

A sustentabilidade também integra as iniciativas da empresa, que instalou 700 metros quadrados de placas fotovoltaicas para abastecer sua área administrativa com energia solar. O trem participa ainda de campanhas de coleta de tampinhas plásticas e garrafas PET, além de ações solidárias de arrecadação de agasalhos e presentes para crianças.

Se o livro de Marília recupera o passado, também aponta para o futuro. Com o Cristo Redentor se preparando para seu centenário, em 2031, estão previstas melhorias na infraestrutura de visitação, com obras administradas pelo Trem do Corcovado.

Marília explica que o andamento das intervenções depende de autorizações dos órgãos públicos. Durante os trabalhos, a empresa precisou reduzir o número de passageiros, a pedido da administração do Parque Nacional da Tijuca. Em situação normal, o Cristo Redentor recebe de cinco a dez mil pessoas por dia, dependendo das condições climáticas e da data.

Outubro ocupa um lugar especial nessa história. Com apenas três dias de diferença, os aniversários do trem e do Cristo celebram trajetórias que se complementam. A inauguração do monumento, em 12 de outubro, também coincide com o Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, reforçando sua dimensão religiosa.

No prefácio do livro, o padre Omar Raposo, reitor do Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor, resume a importância dessa ligação:

— O Trem do Corcovado não apenas conduz visitantes; ele conecta o coração do Rio aos braços abertos do Cristo Redentor. É um modal a serviço da fé, do turismo e da economia da cidade.

O CRISTO NO COTIDIANO DOS CARIOCAS

O Cristo Redentor também é uma fonte inesgotável de inspiração para o fotógrafo Custódio Coimbra, autor de alguns dos registros mais emblemáticos do monumento. Em 1997, ele eternizou a imagem da Lua junto à mão do Cristo, eleita a foto do ano pelos assinantes de O Globo. Em outra ocasião, passou três horas sobre um dos braços da estátua, acompanhando o amanhecer da cidade. Para Custódio, cada fotografia revela uma nova perspectiva, mesmo quando o cenário é o mesmo.

— Gosto de fotografar em repetição e o interessante é que nunca a foto é a mesma, tem sempre algo diferente — afirma o fotógrafo, que também registrou, em 2008, o instante em que um raio atingiu a cabeça do Cristo.

Mais do que um destino turístico, o Cristo Redentor faz parte da paisagem afetiva dos cariocas, especialmente de quem vive nos bairros próximos ao Corcovado. É o caso do economista Marcio Lamanna, morador do Jardim Botânico, que sempre sonhou em conhecer o monumento de perto.

Paulistano, Marcio chegou ao Rio aos 16 anos e descreve sua primeira visita ao alto do Corcovado como fantástica. Católico, ele associa a presença do Cristo na paisagem do bairro a uma sensação de paz, tranquilidade e proteção espiritual. Tanto que acabou vindo morar no Jardim Botânico para ficar sob as bênçãos do Cristo.

Anos depois, fez questão de proporcionar a mesma experiência ao filho, Lucas, que tinha apenas três anos quando embarcou no Trem do Corcovado.

— Fui com o Lucas em um dia de sol e ele achou incrível, principalmente por ser o lugar mais alto que já tinha visitado — relembra.

Marcio Lamanna, acabou vindo morar no JB para ficar perto do Cristo

O Cristo Redentor também inspirou o carnaval de rua do Jardim Botânico, dando nome ao Suvaco do Cristo, um dos blocos mais tradicionais e animados do bairro. Criado em 1986, o bloco recebeu esse nome bem-humorado pela localização do Jardim Botânico, aos pés do monumento, como se estivesse debaixo de uma de suas axilas. Ao longo de quatro décadas, o Suvaco reuniu gerações de foliões e ajudou a fortalecer a tradição carnavalesca da região. Ao completar 40 anos, este ano, o bloco se despediu das ruas, encerrando uma trajetória marcada pela irreverência, pela música e pela ocupação festiva do bairro.

40 anos do Bloco Suvaco do Cristo e A tradição da Fudação Laço Rosa “Outubro Rosa” no Cristo

A iluminação do Cristo é um espetáculo à parte desde a inauguração do monumento. Naquela noite célebre, o plano era que os refletores fossem acionados diretamente de Roma pelo cientista italiano Guglielmo Marconi, inventor do telégrafo sem fio. Mas o mau tempo prejudicou a transmissão do sinal, e técnicos brasileiros precisaram acender as luzes manualmente, no Corcovado. A chuva fina e o forte nevoeiro ainda dificultaram a visualização do monumento iluminado.

Desde então, a iluminação ganhou novas tecnologias e significados. Atualmente, o monumento recebe cores especiais para dar visibilidade às campanhas de saúde, solidariedade, inclusão e preservação ambiental. O azul é utilizado para conscientização sobre o autismo, em abril, e o Novembro Azul é dedicado à saúde masculina. O amarelo está associado ao Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio; o vermelho marca ações de conscientização sobre HIV/Aids, em dezembro; e o verde pode representar iniciativas ambientais e de incentivo à doação de órgãos.

Uma das campanhas mais importantes é o Outubro Rosa. Tradicionalmente, a Fundação Laço Rosa abre o mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama iluminando o Cristo Redentor de rosa, chamando a atenção para a importância da prevenção e do diagnóstico precoce da doença. Aos 95 anos, o Cristo Redentor segue sendo mais do que um dos cartões-postais mais conhecidos do mundo. Suas cores transformam a paisagem carioca e ajudam a levar mensagens de conscientização a milhões de pessoas.

SERVIÇO

Livro: “Trem do Corcovado, 140+ – Nos trilhos rumo aos 150 anos”
Autora: Marília Neves
Onde encontrar: Loja oficial do Trem do Corcovado e Livraria da Travessa

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