1 de maio de 2026
MOBILIDADE SOB NOVA PRESSÃO

Texto de Zé Miranda e Liz Tamane

Na paisagem privilegiada da Lagoa e nas ruas arborizadas da Gávea, pedalar é sinônimo de qualidade de vida. Com ciclovias e fluxo constante de moradores e turistas, a bicicleta tornou-se parte da identidade local. Mas, recentemente, um novo personagem tem tomado espaço, e gerado tensão: as bicicletas elétricas e ciclomotores, que se multiplicam sem controle claro e já alteram a dinâmica de locomoção ecológica urbana desses bairros, bem como de toda a cidade. 

O excesso de bicicletas elétricas e a falta de regras no seu uso já estavam em pauta, mas o tema só foi tratado com a urgência necessária após a morte de Emanoelle Martins Guedes de Farias, 40 anos, e seu filho, Francisco Farias Antunes, 9 anos, em um acidente com um ônibus, na Tijuca. A repercussão do acidente foi tanta que, no dia primeiro de abril, a Prefeitura do Rio lançou o Decreto nº 57.823, que regulamenta a circulação das bicicletas e patinetes elétricos e dos autopropelidos em geral. Pelas novas regras, ciclomotores deverão ser emplacados até o fim de 2026 e só poderão circular em vias de até 60 km/h, sempre pelo lado direito. Já as bicicletas elétricas devem priorizar ciclovias, um ponto crítico em bairros como o Jardim Botânico, onde essa infraestrutura não existe de forma contínua.

Moradora do Jardim Botânico, a bióloga Camila Felipe, 46 anos, é ciclista praticante, e abriu mão do seu carro ano passado para comprar uma Bee (autopropelido, com aceleração eletrônica máxima de até 30 km) que é usada em sociedade com os filhos Pedro (20) e Joana (18), que também dividem uma bike elétrica da Lev. Ela gostou das medidas adotadas pela Prefeitura, mas acha que é apenas o começo.  

– Aqui em casa as bicicletas têm atendido muito bem nossa necessidade de deslocamento diário. Mas fico preocupada, pois não temos segurança no nosso deslocamento. É preciso estudar soluções mais completas para integrar esse modal ao trânsito da região – reflete  Camila. 

Camila (em pé) e os filhos Joana e Pedro fazem tudo de bike (Foto: Chris Martins)

Para Joana, a pior parte é a falta de uma ciclovia exclusiva, já que a cidade é cortada por pistas compartilhadas onde a prioridade é do pedestre.

– É muito ruim andar na São Clemente e na Voluntários da Pátria (Botafogo), não tem calçada, as ruas são  apertadas. Não tem alternativa. Apesar de ser uma pista compartilhada, andar na Lagoa e na orla ainda é a melhor opção – comenta a jovem estudante, que estuda na Praia de Botafogo e sofre todo dia com o trajeto.

Pedro aproveita o comentário da irmã e reforça que se incomoda com a falta de informação das pessoas. 

– Eu costumo andar muito com a Bee, porque ela é mais robusta. E as pessoas olham e não sabem que ela é um modelo autopropelido sem pedal, que só vai até 30 km por hora, que no final é igual a bicicleta elétrica, só tem tamanho. É preciso educar as pessoas para que elas saibam a diferença entre os veículos – explica o futuro economista.

Com base no novo decreto, desde o dia 6 de abril, a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP) vem fiscalizando as ciclovias para reduzir o nível de desinformação popular. Em uma única ação, mais de 550 pessoas foram abordadas em bairros da Zona Sul e da Zona Oeste. A maioria dos casos envolvia justamente o uso irregular de ciclomotores em ciclovias, prática agora proibida. A operação foi realizada em conjunto com a CET-Rio, a Guarda Municipal e a Secretaria de Assistência Social, e teve caráter educativo, mas escancarou o tamanho do problema. Além da circulação irregular, agentes também flagraram condutores de bicicletas elétricas sem capacetes e equipamentos de proteção, reforçando a necessidade de conscientização. 

– As nossas ações de fiscalização nas ciclovias têm um forte aspecto de conscientização e, até por isso, ainda não estamos aplicando multas aos condutores de ciclomotores e bikes elétricas. O principal é informar sobre como esses condutores devem usar as ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas. Mas, por conta da demanda crescente, é fundamental a participação dos cidadãos para que tenhamos um trânsito com mais harmonia. As regras estão aí para isso – reforça o Secretário Marcus Belchior.

A regulamentação ainda esbarra na realidade urbana. Enquanto Lagoa e Gávea concentram ciclovias que estão sendo tomadas pelas bicicletas elétricas, o Jardim Botânico permanece à margem de um planejamento cicloviário consistente. Sem pistas adequadas, ciclistas, elétricos ou não, são obrigados a dividir espaço com carros em vias movimentadas e, eventualmente, até mesmo subir em calçadas, elevando o risco de acidentes com pedestres e outras bicicletas, incluindo aquelas usadas para entregas. 

O empresário Felipe Continentino, 48 anos, mora no Jardim Botânico, mas circula direto com sua bicicleta elétrica, seja para levar o filho para a Escola Parque, na Gávea, ou para participar de alguma reunião em Botafogo. Na sua opinião, é importante reconhecer a importância desses veículos para o transporte urbano, ouvir instituições e especialistas que têm as informações necessárias e, depois disso, desenvolver e implementar um plano de verdade.

O empresário participou da criação da ciclofaixa na Gávea (Foto: JBem Folhas) 

– A Prefeitura, que não cumpriu suas próprias metas de implantação de ciclovias, decidiu olhar para o tema da mobilidade urbana a partir de um episódio trágico: a morte de uma mãe e uma criança. Só que a resposta foi punir e restringir o uso de bicicletas elétricas, e não enfrentar a violência do trânsito na cidade de forma mais ampla. É importante debater e criar alternativas,  deixando as ações eleitoreiras de lado – reflete o empresário.

De olho no problema, Felipe e a esposa, Silvia, fizeram um movimento com outros pais  dentro da escola e fizeram contato com Zé Lobo, 56 anos, designer e diretor da ONG Transporte Ativo, que atua há mais de duas décadas na promoção da mobilidade por bicicleta no Rio. Esses encontros começaram com o intuito de repassar conhecimento e informação, mas logo se ampliou com ações e apresentações sobre o tema culminando no ingresso da Escola Parque no programa A Caminho da Escola, da CET-Rio, que disponibilizou a verba necessária para a construção de uma ciclofaixa na Gávea, que vem sendo usada. 

– Embora a ciclofaixa não seja a solução ideal, ela representa um avanço importante, porque dá visibilidade ao ciclista e estimula o uso da bicicleta no dia a dia — afirma Zé Lobo.

Alunos da Escola Parque assistem a apresentação da ONG Transporte Ativo (Foto: Divulgação)

Para o Jardim Botânico, o diretor da ONG acredita que existam desafios maiores devido ao espaço viário limitado, defendendo soluções pontuais e integradas para viabilizar uma futura rede cicloviária. Zé destaca que a infraestrutura precisa vir acompanhada de mudança de comportamento e defende três frentes de ataque: redução da velocidade dos carros, campanhas educativas com conscientização e fiscalização rigorosa.

– Se a gente tivesse educação, consciência e respeito no espaço público, nem precisaríamos de ciclovia… Nosso trânsito é uma bagunça. Precisamos repetir esse modelo participativo em outros bairros para construir soluções coletivas e mais eficazes — defende ele. 

Porém, ainda que não haja avanços tão palpáveis no que diz respeito ao planejamento viário do Jardim Botânico, já é possível notar alguma transformação no comportamento dos ciclistas da região. A legislação têm influenciado a mentalidade de alguns moradores que entendem que, enquanto não ocorrem mudanças no plano geral, cabe a eles assumir essa responsabilidade. A loja Lev, do Jardim Botânico, notou o aumento nas vendas de capacetes para as bicicletas elétricas e autopropelidos.

– Eu costumava vender dois a cada 15 dias, mas na última semana vendi dez. Antes, as pessoas compravam a bicicleta sem se preocupar em levar o capacete junto – explica Gustavo Ribeiro, gerente da unidade que fica no edifício Touch.

Dados do Decreto nº 57.823,

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