Antônio Lins e Manoel Salles*, com colaboração de Pedro Nepomuceno
Em uma cidade marcada pelo ritmo acelerado, encontrar tempo — e lugar — para respirar tornou-se um gesto de resistência. Do Humaitá à Gávea, parques urbanos oferecem mais do que sombra e paisagem: são pontos de encontro, espaços de aprendizagem, territórios de criação e endereços para cuidar do corpo e da mente
Parque do Martelo, Parque Lage e Parque Natural Municipal da Cidade têm dimensões, histórias e propostas distintas. Em comum, mantêm as portas abertas para públicos variados e mostram que o verde urbano pode aproximar moradores da natureza, estimular a convivência e ampliar as possibilidades de ocupação do espaço público.
Um parque feito pela vizinhança
Na Rua Miguel Pereira, em uma área residencial do Humaitá, o Parque do Martelo é considerado o coração verde do bairro. Aberto ao público há 21 anos, o espaço é mantido pela Associação de Moradores do Alto Humaitá (AMAH), com a colaboração de moradores e amigos do parque.
A história dessa ocupação começou ainda nos anos 1980, quando moradores se mobilizaram contra a construção de um condomínio que ameaçava a área verde de 16 mil metros quadrados. Aos poucos, a vizinhança passou a cuidar e ocupar o terreno, que se transformou em um espaço de preservação ambiental, convivência e educação.
Hoje, o parque reúne área infantil, trilhas, apiários e espaços de convivência e recebe atividades para crianças, oficinas, mutirões de plantio e ações voltadas à regeneração da vegetação.

No Humaitá, o Parque do Martelo é considerado o coração verde do bairro
— O Parque do Martelo é o coração verde do Humaitá. Neste ano, completamos 21 anos de abertura ao público, como um espaço educador que contribui para a preservação e para a paisagem urbana — afirma Cristina Cabral, da AMAH.
Em setembro de 2025, a Galeria Jaqueira — espaço expositivo criado para aproximar ciência, arte e natureza — recebeu a exposição “Humaitopia”, da artista Maria Haddock Lobo, conhecida por projetos de ocupação cultural do espaço urbano. Com oficinas e instalações interativas, a iniciativa convidou os moradores a olhar novamente para o bairro — e ajudou a apresentar o parque a quem ainda não o conhecia. Segundo a artista, a exposição revelou uma área que permanecia invisível para parte da vizinhança.
— Eu gosto muito da vida de bairro. Acho que a gente tem que aprender cedo a andar no entorno e conhecer as ruas. Muita gente acha que o parque não é aberto ao público e descobriu que era aberto através da exposição — afirma Maria, moradora da região.
Entre as atividades regulares estão as aulas de Hatha Yoga, conduzidas pela professora Érica Humpert às segundas-feiras, e as práticas de Qi Gong e Tai Chi, com Ricardo Mirapalheta, às sextas-feiras. Para o público infantil, o projeto Partilha na Floresta promove experiências de arte e educação ambiental. A próxima edição, voltada para crianças de quatro a sete anos, está marcada para 12 de setembro.
Outra opção é a oficina Regado a Sabor, da chef Elianor Melo. A atividade apresenta receitas veganas e saudáveis e incentiva o aproveitamento integral de sementes, frutas e legumes, associando alimentação, sustentabilidade e autonomia.
Movimento, equilíbrio e presença no Parque Lage
No Jardim Botânico, o Parque Lage também abriga atividades que convidam à desaceleração. Há cerca de 11 anos, a professora Denise Queiros conduz aulas de Tai Chi no parque. Atualmente, os encontros acontecem às segundas-feiras, às 9h, com duração aproximada de uma hora e meia.
A relação de Denise com a prática começou aos 21 anos, quando morava em Petrópolis. Depois de iniciar a ioga, conheceu o Tai Chi por indicação de uma amiga.

Aula de Tai Chi no Parque Lage, no Jardim Botânico
— Eu não sabia nem o que era Tai Chi e não tinha nenhuma relação com a China. Fui experimentar, gostei e hoje repasso os meus conhecimentos — conta.
Ao longo dos anos, a professora se aprofundou na prática, na filosofia e na medicina chinesas. Embora seja frequentemente associado à saúde e ao bem-estar, o Tai Chi tem origem nas artes marciais chinesas. Seus movimentos contínuos trabalham postura, equilíbrio, concentração e percepção corporal.
Para Denise, a atividade também ajuda o praticante a perceber sua relação com o próprio corpo e com o espaço ao redor.
— A primeira coisa que a pessoa precisa perceber é que o peso do corpo não está na cabeça, está nos pés. O pesado precisa estar em contato com a terra e a mente precisa estar leve — explica.
A aula é aberta a iniciantes e não exige inscrição nem mensalidade fixa. O pagamento é feito por encontro, sem compromisso de continuidade — uma porta de entrada para quem deseja experimentar antes de transformar a prática em rotina.
— Não adianta só ler sobre. Tem que ir a uma aula e experimentar. Você faz, vê se gosta e se identifica — conclui Denise.
Natureza, arte e memória na Gávea
Na Gávea, o Parque Natural Municipal da Cidade estabelece uma relação ainda mais direta entre natureza, cultura e história. O espaço recebe visitantes e também acolhe atividades que aproximam a comunidade da paisagem, da produção artística e da memória carioca.
Dentro do parque, o Museu Histórico da Cidade recebe, de 12 de setembro a 8 de novembro, a exposição coletiva “Vir a Existir”, com curadoria de Julie Brasil. A mostra reúne 40 artistas ligados ao Cedro da Gávea, ateliê e espaço de formação dirigido por Beth Rocha.
Com trajetórias e gerações diferentes, os participantes apresentam trabalhos que investigam as relações entre cidade, paisagem e memória. Pinturas, esculturas, instalações, desenhos e outras linguagens formam um inventário afetivo de experiências como caminhar, morar e atravessar o Rio de Janeiro.
Entre os trabalhos estão registros de fachadas, recortes de paisagens, referências à topografia da cidade e imagens de palmeiras derrubadas. O próprio Museu Histórico da Cidade integra a experiência da mostra: sua arquitetura e suas camadas de memória funcionam como parte da exposição, ampliando as possibilidades de leitura das obras.
A reunião aproxima artistas com décadas de atuação na cena carioca de nomes que começam a apresentar seus trabalhos. Entre os participantes estão Alberto Saraiva, Bruno Miguel, Alvaro Seixas, Cadu, John Nicholson, Luiz Áquila, Marcelo Albagli, Rita Coppos, Ticha Garcia e Milton Machado, entre outros, além da própria Beth Rocha.
Ao reunir diferentes percursos, “Vir a Existir” propõe novos olhares sobre a cidade e sobre aquilo que, incorporado à paisagem cotidiana, muitas vezes deixa de ser percebido.

Dentro do Parque da Cidade, o Museu Histórico da Cidade recebe a exposição coletiva “Vir a Existir”
— Ver esse percurso reunido no Museu Histórico da Cidade é reconhecer a força do encontro entre diferentes gerações de artistas e fazer da arte um campo de permanente redescoberta — afirma Beth Rocha.
A relação afetiva com o Parque da Cidade também passa pela música. Durante a pandemia, o cantor e compositor Pedro Miranda transformou o espaço em ponto de encontro aos domingos, a partir de setembro de 2021. Agora, ele ensaia uma volta ao parque no fim de setembro.
— Apesar de toda a dificuldade daquele momento, sinto saudade de fazer os ensaios abertos e reunir a galera ali. O parque é um lugar muito especial para mim — afirma Pedro.
SERVIÇO
Parque do Martelo
Endereço: Rua Miguel Pereira, 41, Humaitá
Funcionamento: de segunda a domingo, das 8h30 às 13h; aos sábados, até as 18h
Entrada: gratuita
Informações: WhatsApp (21) 97964-4542 | Instagram: @parquedomartelo
Hatha Yoga: segundas-feiras, às 7h40. Informações: @ericahumpert
Partilha na Floresta: 12 de setembro, das 10h às 13h; público de quatro a sete anos. Informações e inscrições: (16) 99202-8180
Regado a Sabor: 20 de setembro, das 9h30 às 12h. Informações: @regadoasabor; (21) 97858-3477 e (21) 96674-6490
Parque Lage
Endereço: Rua Jardim Botânico, 414, Jardim Botânico
Funcionamento: diariamente, das 8h às 17h
Entrada: gratuita
Tai Chi: segundas-feiras, às 9h; duração aproximada de 1h30. Não é necessário fazer inscrição nem pagar mensalidade fixa; o pagamento é feito por aula. Instagram: @projetotaichichuannoparque
Parque Natural Municipal da Cidade
Endereço: Estrada Santa Marinha, 505, Gávea
Funcionamento: diariamente, das 9h às 18h
Entrada: gratuita
Exposição “Vir a Existir”: Museu Histórico da Cidade, de 12/9 a 8/11. Visitação das 9h às 16h. Abertura: sábado, 12/9, das 11h às 13h.
Conteúdo produzido pelos alunos Antônio Lins e Manoel Salles por meio da parceria do JB em Folhas com a disciplina Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.




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