6 de outubro de 2026
UM OLHO NAS TELAS E OUTRO NAS RUAS

Há mais de três décadas, Simone Zuccolotto tem a Lagoa Rodrigo de Freitas como cenário da vida cotidiana — e, muitas vezes, como ponto de partida para o trabalho. A jornalista, apresentadora, diretora e crítica de cinema mora na região desde os 20 anos e acompanhou de perto as transformações do audiovisual brasileiro, da retomada, nos anos 1990, à produção contemporânea.

Com 35 anos de profissão, Simone está há mais de duas décadas no Canal Brasil. A primeira experiência profissional veio ainda na faculdade de Comunicação da PUC-Rio. Queria trabalhar com rádio e gostava especialmente de esporte, mas, entre o terceiro e o quarto período, surgiu uma vaga no canal Telecine, da Globosat.

— Eu sempre me interessei por cultura e lia os cadernos culturais dos jornais, mas nunca tinha pensado em me dedicar totalmente ao cinema — recorda.

Depois do Telecine, passou pela TVE, TV Cultura de São Paulo e Multishow, antes de chegar ao Canal Brasil. Ao longo da carreira, passou a fazer crítica, escrever para livros, participar de júris e fazer curadoria de festivais. Só em 2026, integrou os júris do Cine PE, Guarnicê, Aruanda e Festival de Vitória.

Simone Zuccolotto na cobertura do Festival de Cinema de Cannes.

Para Simone, o Festival do Rio tem uma característica especial: a relação com a cidade e a força da Première Brasil.

— Todos querem estar no Festival do Rio. Os realizadores, os agentes do cinema brasileiro querem estar com um filme no festival. É um evento que destaca as produções da cidade.

Simone Zuccolotto durante a cobertura do Festival do Rio.

Na programação deste ano, Simone já tem alguns filmes no radar: “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli; “À Margem do Rio”, de Enock Carvalho e Matheus Faria; e “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.

Simone também vê diferenças entre o trabalho do jornalista e o do criador de conteúdo nas redes sociais.

— Eu crio conteúdo, influencio pessoas, mas a minha formação é de jornalista. Às vezes, no Instagram, dou dicas, mas, quando faço uma matéria, meu olhar é jornalístico.

Depois de décadas de profissão, perdeu a conta de quantas entrevistas fez. Rui Castro, Chico Buarque, Caetano Veloso e Fernanda Montenegro estão entre as que guarda na memória. Mas admite uma predileção pelos veteranos do cinema brasileiro, como Reginaldo Faria, Betty Faria, Rui Guerra, Zelito Viana e Laura Cardoso.

— Eu gosto muito de entrevistar os mais velhos, essas pessoas que vêm lá do Cinema Novo, que têm toda essa bagagem. Eles também me viram começar, com 20 anos. Me sinto parte dessa trajetória. De alguma maneira, a minha história se mistura com a do cinema brasileiro.

Jornalista Simone Zuccolotto ao lado do ator Rodrigo Santoro.

Simone também gosta de descobrir novos talentos. Lembra de ter percebido cedo o potencial de Mateus Nachtergaele e de nomes como Rodrigo Santoro, Alice Braga, Wagner Moura e Lázaro Ramos. Além das entrevistas, dirigiu cerca de 18 séries documentais sobre o cinema e o audiovisual brasileiro.

Jornalista Simone Zuccoloto ao lado do ator Wagner Moura e do diretor Kleber Mendonça Filho.

No cotidiano, a jornalista é também uma moradora que gosta de viver o bairro a pé. A rotina muitas vezes começa com exercícios na Lagoa e inclui uma parada na padaria Santa Marta para comprar pão francês. Na Fonte da Saudade, onde mora, aprecia justamente o pouco comércio e o caráter residencial.

— Eu gosto de não ter comércio. Acho que preserva essa coisa de bairro residencial — afirma.

Mas sente falta de duas coisas. Uma delas, previsivelmente, é uma sala de cinema por perto. Simone imagina uma das antigas casas da região transformada em centro cultural.

— Seria incrível ter um espaço para um cineclube confortável e uma sala para espetáculos, com uma boa cafeteria. Eu adoraria — aposta a apresentadora.

A outra é transporte público. Sem metrô próximo e com poucas opções de ônibus, acaba recorrendo ao carro ou ao táxi.

Ir ao cinema continua sendo um programa completo. Simone gosta especialmente de assistir a filmes sozinha, à tarde. Para ela, o streaming pode ser mais barato e cômodo, mas não substitui a experiência da sala escura.

— Para mim, é um evento. Não é só assistir a um filme. É como ir a um show, a uma peça de teatro ou sair para jantar. Além de ser meu trabalho, é lazer também — diz.

Mesmo depois de tantos anos assistindo a filmes por profissão, ainda gosta de entrar numa sessão sabendo pouco sobre o que vai encontrar. No Festival do Rio, procura essas descobertas, entrando na sala, como diz, “com os olhos livres”. Talvez seja a mesma curiosidade que leva para as ruas do bairro.

— Eu gosto de andar e observar as pessoas — conclui.



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