31 de julho de 2026
QUANDO O ACASO VIRA DESTINO

Há cerca de 25 anos, a arquiteta Erika Duarte constrói uma relação singular com o Horto. Embora não more oficialmente no bairro, tornou-se uma de suas figuras mais presentes, restaurando imóveis históricos, incentivando melhorias urbanas e criando espaços dedicados à arte e à os convivência. Seu vínculo nasceu por acaso, mas hoje se traduz em um forte sentimento de pertencimento.

A história começou quando acompanhava o ilustrador Filipe Jardim em um trabalho sobre diferentes paisagens do Rio de Janeiro e sugeriu incluir o Horto no roteiro. Os dois registraram uma esquina do bairro sem imaginar que, anos depois, justamente a casa fotografada apareceria à venda. Erika comprou o imóvel sem nunca tê-lo procurado especificamente, enxergando ali a oportunidade de realizar um desejo antigo: restaurar uma construção histórica. Para ela, esse caminho parecia já estar traçado, sentimento que hoje associa à frase: “O futuro entra em nós antes de acontecer.”

Filipe Jardim fez a ilustração da casa onde anos depois, Erika montaria seu escritório

Filipe Jardim fez a ilustração da casa onde anos depois, Erika montaria seu escritório

— Você olha para um lugar e fala: “Isso aqui, se fosse restaurado, ia ficar tão bacana”. De alguma forma, isso já está dentro de você: o desejo de restaurar aquilo. Na primeira  oportunidade, o fará — afirma.

Ali começou a história de Erika com o Horto, que transformou não apenas sua trajetória profissional, mas também parte da paisagem do bairro, especialmente da Rua Caminhoá. Como arquiteta, ela passou a recuperar características originais de casas centenárias, devolvendo arcos, janelas de madeira e outros elementos arquitetônicos que haviam sido descaracterizados ao longo do tempo. Aos poucos, outros imóveis também passaram por suas mãos, e esse movimento de restauração acabou inspirando novos proprietários a valorizarem o patrimônio histórico da região.

O olhar de Erika sempre foi além das construções. Ela acredita que preservar um bairro significa também cuidar do espaço público e, com esse pensamento, participou da reorganização das calçadas, incentivou a criação de canteiros, buscou soluções para melhorar a acessibilidade e estimulou vizinhos a cuidarem do entorno. Até se arriscou na criação de uma horta comunitária, mantida com a colaboração dos moradores, mas abandonada depois de repetidos casos de vandalismo e da retirada das plantas. Ainda assim, segue acreditando no cuidado coletivo como forma de transformação.

— Gentileza gera gentileza. Um movimento de reformas, de melhorias, gera melhorias. Se você mantém sua calçada limpa, arrumada e com plantas, o outro pensa duas vezes antes de jogar lixo.

Essa mesma ideia deu origem à Casa Caminhoá. O espaço nasceu quase por acaso, depois que uma oficina de aquarela organizada em seu escritório despertou o interesse dos participantes por novos encontros. Em pouco tempo, a iniciativa cresceu e se transformou em um centro de convivência que passou a reunir cursos de aquarela, bordado, ilustração, encadernação, yoga e diversas outras atividades culturais. Após a pandemia, a Casa Caminhoá assumiu um novo formato, voltado principalmente para eventos e ocupações artísticas. Paralelamente ao trabalho como arquiteta, Erika também passou a ministrar oficinas de bordado, mantendo viva a proposta de integrar arte, criação e convivência.

Porta de entrada da Casa Caminhoá, no Horto.

Apesar da atuação intensa, ela evita assumir para si o protagonismo das transformações do bairro. Faz questão de lembrar que o Horto já possuía uma tradição artística antes de sua chegada, com ateliês e artistas consolidados.

Frequentadora dos restaurantes locais, Erika defende que a chegada de novos empreendimentos pode fortalecer o Horto, mas ressalva:

— Esse crescimento precisa ser com respeito aos moradores e ao patrimônio.

Mesmo sem morar no bairro, ela passa boa parte dos dias no Horto e cuida dele como cuida da própria casa. Seu trabalho mostra que preservar vai além de recuperar fachadas: é incentivar a convivência, valorizar a memória e estimular que outras pessoas também se sintam responsáveis pelo lugar.

Arquiteta Erika Duarta na Casa Cominhoá

— Implodir, demolir, é muito mais fácil do que restaurar. Quando você restaura e volta ao original, você traz não só o que era a história, mas mostra a beleza do que é — conclui a arquiteta.

 

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados