25 de junho de 2026
A MULHER POR TRÁS DOS MOVIMENTOS

Quem cruza com a coreógrafa e preparadora corporal Marcia Rubin pelas ruas do Jardim Botânico dificilmente imagina que aquela mulher observando árvores frutíferas, fotografando carros estacionados irregularmente na calçada ou cuidando de um pé de jambo na esquina das ruas Maria Angélica e Araucária seja a mesma profissional que ajuda a construir alguns dos personagens mais marcantes da televisão brasileira.

Moradora do bairro desde 1986, Marcia é daquelas cidadãs que conhecem cada detalhe da vizinhança. Usuária frequente do serviço 1746, registra irregularidades, cobra melhorias para o trânsito, acompanha discussões urbanas e sonha com uma comunidade mais integrada e participativa.

— Acredito que isso também é uma forma de educar — resume.

A dedicação ao espaço público convive com uma carreira de mais de quatro décadas nos bastidores das artes cênicas. Aos 64 anos, a preparadora corporal vive um momento especial. Seu trabalho pode ser visto simultaneamente nas novelas “Quem Ama Cuida” e “Coração Acelerado”, além da série “Guerreiros do Sol”. Paralelamente, voltou aos palcos após 15 anos afastada como intérprete, com o espetáculo “No Entanto Ela se Move”, que ficou em cartaz no mês de junho no Sesc Copacabana.

Embora seu rosto raramente apareça diante das câmeras, sua influência está presente em inúmeros personagens.

— Costumo dizer que o trabalho mais importante é sempre o que estou fazendo agora — afirma ela, sem eleger um espetáculo mais importante no currículo.

Formada pela escola de Angel Vianna, Marcia iniciou a trajetória pela dança e, nos anos 1980, aproximou-se do teatro. Um dos primeiros trabalhos foi no espetáculo infantil “Morangos e Lunetas”, estrelado por Patrícia Pillar. Depois vieram a Escola de Teatro Martins Penna, o cinema e a televisão. Participou de produções como “Carlota Joaquina” e passou a integrar equipes de preparação de elenco da Globo, trabalhando ao lado de diretores como José Luiz Villamarim, Luiza Lima e Gustavo Fernandez.

— Trabalho junto com o preparador de elenco, ajudando o ator a acessar recursos que muitas vezes nem sabe que possui para a composição do personagem. Também ajudo a direção a pensar determinadas cenas.

Seu trabalho envolve a construção de gestos, posturas e relações entre personagens. Em “Vale Tudo”, participou da elaboração de cenas de Odete Roitman, interpretada por Débora Bloch, amiga dos tempos de infância, quando as duas estudavam dança em Ipanema.

Outra amizade de longa data é com Débora Colker, com quem dividiu os primeiros anos de formação artística.

Apesar da sólida carreira no audiovisual, Marcia nunca abandonou o teatro. Entre os trabalhos recentes estão “Veias Abertas”, “Aurora” e a preparação de elenco da peça “Férias”. Entre os projetos mais marcantes da carreira, destaca “Incêndios”, com Marieta Severo.

O retorno aos palcos como intérprete, porém, trouxe também reflexões sobre o mercado cultural.

— Não existe no Brasil um projeto que valorize quem já construiu uma trajetória consolidada — observa, chamando a atenção para a necessidade do artista experiente ainda ter que captar patrocínio para subir ao palco nos dias de hoje.

Entre ensaios e gravações, o Jardim Botânico continua sendo seu porto seguro. Ao lado do porteiro Alan, assumiu os cuidados de um pé de jambo no cruzamento da Maria Angélica com a Araucária, uma espécie de adoção informal que traduz sua relação afetiva com o lugar onde vive.

— Eu gosto de caminhar e adoro descobrir as árvores frutíferas espalhadas pelas ruas. Aqui  no meu quarteirão tem fruta-do-conde, amora, pitanga e graviola. – comenta ela, que costuma receber visitas frequentes de Tucanos, tiê-sangue, gaturamos, saíras, gibões e maritacas na janela do seu apartamento, interessados na água e frutas que ela oferece. 

Marcia chegou ao Jardim Botânico ao lado da irmã, Nani, depois de deixar Copacabana e anos depois seguiu para uma temporada na Gávea. Há 20 anos voltou ao apartamento que dividiu com a irmã quando jovem e retomou uma relação cotidiana com o bairro que vai além do simples ato de morar.

Usuária assídua do 1746, registra carros estacionados em vagas de idosos, denuncia veículos em frente a garagens e cobra mais fiscalização para a região.

Ao mesmo tempo em que critica o excesso de ônibus, a desorganização do trânsito e as podas agressivas das árvores, defende uma cidade construída coletivamente. Sonha com hortas comunitárias, associações de moradores mais integradas e um bairro em que as pessoas se sintam corresponsáveis pelo espaço público.

— Às vezes dá vontade de criar um coletivo de verdade. Quando surge uma necessidade concreta, como aconteceu na discussão sobre o trânsito e a mão dupla da Maria Angélica, as pessoas conseguem se unir por um curto período. Mas ainda falta um senso maior de comunidade. Somos um bairro só, tudo poderia ser diferente.

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