Algumas coisas são predestinadas a acontecer, como a presença da arte na vida de Luísa Thiré. Sua história começou tão cedo que as primeiras lembranças são anteriores à própria carreira. Neta da atriz Tônia Carrero e filha da produtora Norma Thiré e do ator Cecil Thiré, a atriz cresceu entre ensaios, coxias e camarins. Aos 55 anos, ela guarda lembranças afetivas do Teatro Gláucio Gil, para onde retorna, agora celebrando quatro décadas de profissão.
– A primeira vez que minha avó me viu andar foi dentro desse teatro. Ela estava no palco ensaiando, meu pai estava a dirigindo, e mamãe passou comigo para o final do ensaio – recorda.
É nesse mesmo palco que ela apresenta a Valsa Nº 6, peça escrita por Nelson Rodrigues, que encena há 14 anos. Com direção de Claudio Torres Gonzaga, o espetáculo faz curta temporada até 31 de agosto, aos sábados, domingos e segundas, às 20h. Desde sua estreia em 2012, no centenário do dramaturgo, a atriz interpreta Sônia, uma jovem que foi assediada, violentada e assassinada aos 15 anos.
No monólogo, Luísa entra sozinha no palco, mas nunca só. Cada apresentação é acompanhada pela energia da plateia, em sinergia efêmera que nunca se repete.

Luisa Thiré encenando no espetáculo ‘Valsa Nº 6’
– É um encontro único e acho que é justamente isso que faz o sucesso deste espetáculo – reflete a intérprete.
Atualmente, ela divide seu tempo entre atuar, dirigir e ser preparadora de elenco de diversos projetos. Além da peça de Nelson Rodrigues, Luísa dirige um espetáculo infantil chamado “Os sonhos de Tom e Théo”, com estreia programada para o dia 10 de outubro, no Teatro Fashion Mall, e também se prepara para voltar à TV, com uma participação na novela “Por Você”, na TV Globo, como a personagem Nair. Sem revelar muitos detalhes, para não estragar a surpresa, ela acredita que o papel pode render.
Fora dos palcos, a atriz circula pelo Humaitá, bairro onde construiu quase toda sua história. Embora tenha morado por um curto período no Jardim Botânico, guarda lembranças queridas de festas na casa de sua avó, no bairro. Mas é no endereço atual que fincou raízes. Há 26 anos no mesmo condomínio, ela tem a família sempre por perto: a mãe vive a duas quadras para um lado, e o irmão a três de distância. Foi nesse recanto que criou os três filhos, estabelecendo uma relação de pertencimento com cada esquina da região.

Em família, com os filhos na comemoração dos seus 45 anos no Bar Palhinha | Acervo Pessoal
Engajada no movimento Humaitá Verde – criado para protestar contra novos empreendimentos imobiliários e supressão de áreas verdes da região –, Luísa participa da luta contra a expansão imobiliária que tem atormentado a população. Ela mora em uma das ruas próxima ao empreendimento HUM, da TAO construtora, no antigo terreno do colégio Padre Antônio Vieira, que já foi denunciado pelas irregularidades urbanísticas e impactos ambientais, mas continua sendo erguido.
– O Humaitá está à venda. São casas e árvores indo abaixo para dar lugar a obras faraônicas, com projetos que não cabem nas nossas ruas. Não tem espaço, não tem esgoto que suporte tanta gente – protesta.
Em meio a tantos compromissos, a produtora mantém sua rotina no Humaitá como um contraponto ao ritmo acelerado da cultura digital. Na esquina da Rua Cesário Avon, a papelaria HumaiTem é quase uma extensão de sua casa, assim como o Bar Palhinha onde costuma encontrar vizinhos e fazer comemorações. Mas não abre mão de arrumar tempo para pedalar na Lagoa Rodrigo de Freitas. Para ela, a mesma dinâmica que impulsiona sua trajetória artística também orienta sua relação como vizinha: a valorização da interação humana.
– É muito familiar essa relação. Eu gosto muito. Principalmente em tempos digitais, em que as pessoas estão tão afastadas. Eu acho maravilhoso. O teatro tem isso também, né? É aquele lugar onde as pessoas vão guardar o telefone e ficar juntas por pelo menos uma hora acompanhando uma história.




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