Quem passa pelo Horto pela primeira vez costuma se encantar com os restaurantes, as trilhas, as cachoeiras e o verde exuberante que cerca o bairro. Mas quem conhece sua história sabe que o maior patrimônio desse pedaço da Zona Sul não está na paisagem. Está nas pessoas.
Nascido ainda no período do Império, quando era chamado de Horto Real, o bairro preserva até hoje um modo de vida cada vez mais raro na cidade. Ali, vizinhos se conhecem pelo nome, famílias convivem há gerações, comerciantes mais antigos acompanham a vida de seus clientes desde a infância, e a solidariedade faz parte da rotina. Um jeito de viver que lembra as antigas cidades do interior e que ajudou a construir uma das comunidades mais unidas do Rio.
Durante décadas, o Horto foi notícia pelas disputas judiciais, pelas ameaças de reintegração de posse e pelo medo de centenas de famílias perderem suas casas. Hoje, o bairro vive um novo capítulo. A assinatura dos acordos individuais, iniciada este ano, consolida o entendimento firmado em outubro de 2025 e reconhece oficialmente o direito de permanência de 621 famílias, encerrando um longo conflito fundiário.
Resultado de quase três anos de negociações entre moradores, Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, União, Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União e demais instituições envolvidas, o acordo reconhece as raízes históricas da comunidade, formada por herdeiros de pessoas escravizadas que trabalharam no antigo Real Horto e por trabalhadores que se fixaram na região para atuar no Jardim Botânico e em seu entorno. Em contrapartida, os moradores assumiram o compromisso de impedir novas ocupações, conciliando o direito à moradia com a preservação ambiental.

Moradores conseguem acordo reconhece as raízes históricas da comunidade.
Esta conquista nasceu da união de uma comunidade que, durante mais de quatro décadas, resistiu às tentativas de remoção e encontrou na Associação dos Amigos e Moradores do Horto (AMAHOR) sua principal forma de organização.
Criada na década de 1980, a associação transformou a mobilização dos moradores em diálogo permanente com o poder público. Ao longo dos anos, atravessou diferentes governos, acompanhou processos judiciais e participou diretamente das negociações que culminaram no acordo histórico. Mais do que representar os moradores, a AMAHOR ajudou a manter viva a identidade de uma comunidade que nunca abriu mão do direito de permanecer onde sua história começou.

O casal Fabio e Andrezza dividem também as tarefas na AMAHOR.
— A nossa luta é pelo direito de morar, não pelo direito de lucrar com o território. Se liberasse venda e aluguel, isso aqui viraria alvo direto da especulação imobiliária — afirma Fábio Dutra, que está no primeiro ano do seu segundo mandato, que termina em 2029.
Além de Fábio, a AMAHOR conta ainda com a gestão dos moradores Cyro Haddad (vice-presidente), Giselda Ribeiro (diretora financeira) e Sandra Monteiro (secretária). Junto também está Andreza Staiti Costa, diretora cultural e mulher de Fábio. Enquanto ele está à frente das articulações institucionais e da construção de novas parcerias para a comunidade, ela coordena a agenda cultural. Se antes o desafio era garantir o direito de permanecer no Horto, agora o objetivo é preservar e fortalecer o modo de vida que caracteriza o bairro.
— A luta pela moradia uniu a comunidade. Nosso desejo maior é que essa mesma união sirva para preservar nossa história, cuidar da natureza e manter vivo esse jeito de viver que faz do Horto um lugar tão especial. Essa sempre foi a nossa maior riqueza — resume Fábio.
Com a segurança da permanência garantida, a atuação da AMAHOR ganhou novos rumos. Além de acompanhar o cumprimento do acordo, a entidade promove campanhas de vacinação, emissão de documentos, arrecadação de alimentos e desenvolve projetos culturais e ambientais em parceria com o próprio Jardim Botânico — uma relação que, durante décadas, foi marcada quase exclusivamente pelo conflito.
— Existe hoje um processo de reconciliação. Durante muito tempo, a gente só se relacionava por meio do conflito. Agora começamos a construir outras possibilidades — afirma Fábio.
Se a AMAHOR representa a organização coletiva do Horto, Pedro Marins simboliza a preservação de sua memória. Morador da comunidade desde o nascimento, ele vive na mesma casa construída por seu avô, antigo trabalhador do Jardim Botânico, e acompanhou de perto toda a luta pela permanência das famílias.
Em 2016, no auge da disputa fundiária, Pedro decidiu transformar sua experiência como publicitário e repórter cinematográfico em mais uma ferramenta de mobilização. Ao lado da namorada, Nélia Vasconcelos, criou a TV Horto para registrar o cotidiano da comunidade, divulgar manifestações e apresentar a versão dos moradores diante da cobertura da grande imprensa.


Pedro e Nélia formam a equipe da TV Horto
— A gente era uma formiguinha diante de um dragão, mas fazia questão de mostrar o que realmente acontecia aqui.
Ao longo dos anos, a TV Horto registrou assembleias, protestos, festas e momentos decisivos da luta pela posse da terra. O slogan criado por Pedro — “A TV que veio para ficar” — refletia a confiança de que a comunidade resistiria. Hoje, com a permanência das famílias garantida, o canal continua ativo, agora dedicado a preservar a memória, registrar o dia a dia e contar as novas histórias do bairro.
Para Pedro, a maior conquista foi manter viva a identidade construída por gerações de moradores.
— Nós somos uma família centenária do Horto. Todos nós nos conhecemos desde o nascimento e nos respeitamos como uma grande família. No final, a verdade venceu e o Horto ficou! Mas as marcas da demolição das casas dos que se foram nunca serão esquecidas.

Ana Soter e seu companheiro sofrem há anos com a obra do IMPA (Acervo Pessoal).
A questão fundiária do Horto com o JBRJ terminou, mas o coletivo agora mira sua mobilização para a defesa da memória, da natureza e da qualidade de vida dos moradores, especialmente na Rua Barão de Oliveira Castro, que sofre com os impactos das obras do alojamento do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), em construção há mais de 5 anos. À frente desta luta está a designer Ana Soter, moradora do bairro há 52 anos da região e vizinha do muro da obra. Junto com o seu companheiro, eles estão sempre prontos para chamar o empreendedor e a construtora à razão e tentar diminuir o que eles chamam de barbárie verde.
– É um sentimento que não desejo para ninguém. Vivi a vida toda aqui, junto com meus pais e diariamente eu vejo um pouco do Horto ir embora por essa ganância. Essa obra não tem nada a ver com a região e continuamos tentando de todas as formas chamar a atenção das autoridades. E não vamos desistir. Acho que esse sentimento de brigar pelo respeito aos moradores e à natureza já está incutido aqui no bairro – reflete Ana.
*Conteúdo produzido com a colaboração do alunos Carlos Eduardo Brazil e Maria Julia Fernandes, através da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. *Conteúdo produzido pelos alunos Carlos Eduardo Brazil e Maria Julia Fernandes, através da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.



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