28 de agosto de 2026
NÃO BASTA PLANTAR: É PRECISO PRESERVAR AS ÁRVORES

Vou começar com uma confissão: sou dessas que gosta de abraçar árvores. E, nos meus rolés pela região, estou sempre de olho nelas. Algumas parecem ter saído de filme de terror, outras gostam de exibir sua beleza. Tenho minhas favoritas: as palmeiras imperiais no muro do Jardim Botânico, os ipês e os pés de jambo da Praça Pio XI, que, quando florescem, formam um tapete rosa. Fazem parte da paisagem e da memória deste bairro que tem nome de jardim.

Quase toda semana recebo mensagens denunciando podas pelo excesso de corte. Outro dia, a Rua Lineu de Paula Machado foi vítima de um verdadeiro arrastão feito pela Comlurb, que deixou tocos e trechos sem sombra. No Humaitá, a cena se repetiu nas ruas Viúva Lacerda e Cesário Alvim, que ficaram literalmente “peladas”. Até os micos estranharam.

É claro que árvores precisam de poda. Quando feita corretamente, ela contribui para a saúde e a segurança. Mas algumas intervenções levantam dúvidas e deixam a sensação de que cortar parece mais fácil do que avaliar o que realmente precisa ser feito.

E o problema não está apenas nas podas. Em uma cidade que ganha novos empreendimentos, árvores também perdem espaço para as construções. Entre 2023 e 2025, o Rio emitiu 478 licenças ambientais com previsão de supressão de vegetação em processos de empresas. Não são 478 árvores retiradas, mas o número dá uma dimensão dessa pressão.

Ficou fácil derrubar uma árvore centenária, plantar algumas mudas e chamar isso de compensação. Mas quem vai esperar décadas pela sombra, pelos frutos e pela copa que ela oferecia?

Cada árvore também carrega uma história e integra um ecossistema: abriga pássaros, alimenta animais e serve de passagem para os micos. Quando uma antiga desaparece, perdemos verde, memória, paisagem e uma rede de vida.

Também falta equilíbrio. Enquanto algumas sofrem com podas excessivas, outras ficam esquecidas, tomadas pela erva-de-passarinho. A Pio XI, nossa pracinha e referência cultural da região, está com o alerta vermelho. Há exemplares precisando de atenção há tempos, e nada é feito.

E há mais um motivo para não adiar esse cuidado. O El Niño está se fortalecendo e há mais de 90% de chance de se tornar muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Diante da perspectiva de eventos climáticos mais extremos, manter as árvores saudáveis também é uma questão de segurança. Vamos esperar um galho ou uma delas cair durante uma ventania e machucar alguém?perar um galho ou mesmo uma árvore cair durante uma ventania e machucar alguém?

No dia 19 de setembro, comemoramos o Dia da Árvore. Talvez a melhor homenagem seja olhar para as que já temos e perguntar: o que estamos fazendo para preservá-las?

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