26 de novembro de 2020
DA CASA DA TÁTA: ESPAÇO DE COMIDA E ACONCHEGO

Texto: Betina Dowsley | Fotos: Divulgação

Em novembro de 2020, o restaurante Da Casa da Táta completou 20 anos de atividade. Por trás dessa história de sucesso, está o casal Marta Jubé e Álvaro Albuquerque, moradores da Gávea há cerca de 30 anos. O casal administrou por muitos anos os cafés de vários teatros do Rio de Janeiro. O nome do estabelecimento vem justamente dessa época, quando Táta (apelido de Marta) fazia bolos e outras gostosuras para os bistrôs: “Todo mundo perguntava de onde vinham os bolos e a resposta era ‘Da Casa da Táta’”, lembra Álvaro. O espaço aconchegante e descontraído, logo ficou conhecido pelo café da manhã e o bolinho da tarde. Com o tempo, passou a oferecer almoço executivo e, mais recentemente, incluiu em seu cardápio pockets shows do samba ao rock’n’roll.

Apesar de o espaço ser pequeno, a arte não podia ficar de fora. Ainda na casa dos pais, Álvaro tinha um estúdio e dava aula de música, tendo sido baterista da banda Hojerizah. Marta formou-se em arquitetura e trabalhava como atriz. Os dois se conheceram na trupe teatral de Aderbal Freire Filho, o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo. Quando o diretor assumiu a administração do teatro Carlos Gomes e precisou de alguém para cuidar do café, Álvaro e Táta namoravam e toparam o desafio: ele ficou com a logística, e ela, com as comidinhas. Além dos famosos bolos de laranja e fondant de chocolate, Táta fazia pães, croissants e tortas salgadas dignas de um bistrô parisiense.

– Muita gente acha que eu fiz curso de gastronomia durante minha estadia na capital francesa, mas, na verdade, eu fui aprender francês. Trabalhei de babá e garçonete para sobreviver entre um trabalho e outro como atriz – conta a goiana, que aprendeu a cozinhar por necessidade, aos 10 anos, após perder sua mãe.

Para Táta, cozinhar é servir ao outro e, por isso, exige muita responsabilidade. Ela gosta de aprender com as pessoas e, sempre que pode, pede para conhecer a cozinha dos lugares. “Eu nunca havia pensado em ter um restaurante, no máximo um café, inspirado nos de Paris, que funcionasse como ponto de encontro”, explica.

– Depois do Carlos Gomes, vieram a Sala Cecília Meirelles, o Municipal, o João Caetano. A correria era grande para cozinhar, distribuir e administrar os espaços. Cansados e com filhos pequenos, certa madrugada, quando voltávamos para casa, decidimos procurar um lugar fixo, mais perto – recorda Álvaro, que se sente um felizardo por gostar mesmo é de experimentar tudo!

No começo, a Da Casa da Táta não tinha almoço. A refeição foi incluída quase por acaso, da necessidade de fazer comida para eles e para os filhos Téo e Nina, hoje com 25 e 22 anos, respectivamente. O esquema era bem simples, pois não havia fogão, só um forno para pães e bolos: “Tudo era feito naquelas chapas de esquentar quentinhas. Um dia, uma família que tinha uma papelaria ao lado, entrou, perguntou o que estávamos comendo e quis provar. De um dia para o outro, a Táta passou a fazer comida para mais cinco, dez, 15 pessoas…” Quando a papelaria fechou, em 2006, eles puderam ampliar a cozinha do restaurante e tirar toda a produção da própria casa: “A cozinha sempre me salvou”, diz a chef, que define seu estilo como franco-goiano, uma forma de “combater a cultura de sanduiche e bife com fritas”.

– Formamos várias boleiras. Só a Conceição já era cozinheira, mas agora só usa as receitas da Táta. O Antônio, um dos garçons do Municipal, aprendeu a fazer pães, croissants, brioches aqui e acabou contratado pela Casa Carandaí, onde foi premiado. Atualmente, abriu seu próprio negócio na Muzema – orgulha-se o baterista.

Música faz parte da história Da Casa da Táta. Ela chegou naturalmente, em forma de trilha sonora selecionada para o local. Em 2008, os dois passaram a utilizar o espaço para se reunir com amigos para cantar. Primeiro um casal, depois outros. Por três anos, os encontros rolaram todas as segundas-feiras, chegando a grupos de até 30 pessoas. “Havia dias que saíamos às 3h da manhã de lá”, destaca Álvaro, que acabou chamando o músico Luis Carlinhos para profissionalizar o espaço e abri-lo ao público.

– Ele era o mestre de cerimônias, sempre com três convidados. Tivemos a honra de receber Moraes Moreira e Geraldo Azevedo, e de descobrir a cantora Júlia Vargas. O primeiro show do Chico Chico, filho da Cássia Eller, foi aqui. Em 2017, depois de dois anos sem shows, convidei o Pedro Miranda para ocupar as segundas-feiras da casa. Ele optou por um formato acústico, intimista, e trouxe nomes como Joyce, Roberta Sá, Zélia Duncan, Teresa Cristina e Zé Renato para dar canja – conta.

A programação musical Da Casa da Táta estava em alta quando a pandemia chegou. Foram suspensas apresentações de Humberto Effe e Gustavo Corsi e de Toni Platão. Aos poucos, a normalidade foi voltando e com a proximidade das eleições de 2022, o espaço promoveu vários rodas de conversas, tanto com candidatos, como Marina do MST e Dani Balbi, quanto com figuras conhecidas da política. O encontro que reuniu o deputado federal Chico Alencar e o jornalista Chico Pinheiro lotou a casa numa segunda-feira chuvosa de outubro.

Uma preocupação é a inflação dos alimentos, que eles estão fazendo o máximo para não repassar para os clientes. Como há tempos recicla todo seu lixo, outra coisa que incomoda os sócios é o aumento do consumo de embalagens plásticas.

O casal não costuma sair muito, menos ainda para comer. Uma das coisas que gostam de fazer é tomar café da manhã no La Bicyclette, da amiga Ana Paula Gentila, com quem Táta trabalhou em um restaurante de Paris.

Uma coisa que descobriram com a pandemia é que o tempo é a coisa mais preciosa que possuem. Apesar de muito trabalho, o casal não tem uma rotina pré-estabelecida. Muitas vezes passam o dia inteiro no restaurante; às vezes conseguem tirar um tempinho durante a semana ou mesmo fazer uma viagem, fundamental para recarregar as energias.

– Do que a gente gosta mesmo é de programas ao ar livre, ainda mais agora. O Parque da Cidade está bem cuidado, sempre vejo o pessoal da Comlurb por lá. Dá até para ir até a Vista Chinesa e aproveitar as cachoeiras do Horto – garante Álvaro, que indica ainda a trilha do Alto da boa Vista à Mesa do Imperador e o trecho da Transcarioca em Guaratiba, além de passeios na Chapada dos Veadeiros ou pescar no rio Araguaia.

 

2 Comentários

  1. Sizenando Aguiar

    Muito linda a história gastronômica desses dois amigos de longa data!

    Responder
    • JB em Folhas

      Verdade! Uma história que merece ser contada!

      Responder

Deixe uma resposta para Sizenando Aguiar Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

UMA BABEL GASTRONÔMICA PERTO DE VOCÊ

UMA BABEL GASTRONÔMICA PERTO DE VOCÊ

Babel gastronômica: região que vai do Humaitá à Gávea, passando pelo Jardim Botânico e pelo Horto, está cada vez mais gastronomicamente internacional

UMA GULA CARIOCA QUARENTONA

UMA GULA CARIOCA QUARENTONA

Para comemorar os 40 anos da marca, restaurante lança livro que traz uma história curiosa sobre a loja do JB.